A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CONCURSO DE MÚSICAS CARNAVALESCAS DA PREFEITURA   Recently updated !


TUDO ERRADO

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CONCURSO DE MÚSICAS CARNAVALESCAS DA PREFEITURA

Pesquisa e digitalização: Leonor Bianchi

Reportagem de Flávio Porto

Fotos de Aymoré Marella

Esta é uma reportagem para mostrar o ridículo, absurdo e quase infantil que acontece no concurso de músicas carnavalescas instituído pelo Departamento de Turismo da Prefeitura do Distrito Federal. O critério adotado para eleger a melhor marcha e o melhor samba, parece feito por um grupo de meninos cheios de truques, todos maus alunos de matemática, tentando fazer a coisa o mais complicada possível, o que nos força a acreditar que da confusão formada, alguém tira vantagem.

Desde 1934 tudo se processa irregularmente, não no sentido de falcatrua, mas no critério adotado para o pleito, na contagem dos votos, e na injustiça aos compositores e cantores participantes. Naquele tempo o negócio era diferente. Na maioria das vezes o local da apuração era a feira de amostras e comprava-se um cartão para acesso ao recinto. Estes cartões tinham um número, e desses números sorteavam-se 50, cujos portadores elegeriam as melhores músicas do ano. De uma feita então, um esperto da época comprou 2.000 cartões e distribuiu entre os amigos. O preço era pequeno e compensava diante do valor do prêmio, e das 4.000 pessoas presentes sua chance era enorme de contar pelo menos com 15 dos 50 sorteados. E assim aconteceu. E descoberto o processo, nos anos seguintes, o negócio passava a ser feito de outra maneira. Naquele ano de 34 Noel Rosa perdia com Naquele ano de 34 Noel Rosa perdia com “Palpite infeliz” cantado pela fabulosa Araci. No ano de 1935, registrou-se -o maior absurdo desse concurso tão engraçado, dessa mais engraçada ainda prefeitura. Aurora Miranda e André Filho perderam com a música que mais tarde viria a ser o hino nacional do carnaval carioca: “Cidade Maravilhosa”. Nesse ano venceu o “Coração ingrato” gravado por Sílvio Caldas e composto por dois dos maiores papões desse concurso que são Nássara e Frazão. Hoje em dia, até Lúcio Rangel que é o homem que mais sabe letras de músicas populares brasileiras é capaz de não se lembrar mais desse “Coração ingrato”, enquanto as crianças lá de casa sabem de cor a “Cidade Maravilhosa”. E os absurdos continuavam. Em 38 a “Jardineira” de Humberto Porto e Benedicto Lacerda, perdia para “Florisbela” dos mesmos Nássara e Frazão, e, antes disso, “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo, era excluído dos vinte escolhidos para a seleção final. Muito tempo depois, no ano de 49, um bonito samba de autoria de Marino Pinto e Herivelto Martins andou de boca em boca como se todos tivessem cabelos brancos. Não foi escolhido pelos garotos levados da prefeitura para figurar entre os 20 melhores do ano. No final da apuração desse mesmo ano de 49, confirmava-se o absurdo dos anos anteriores: “Batalhão naval”, de João de Barro, um samba absolutamente comum, vencia o “Não me diga adeus”, de Luis Soberano, samba, convenhamos, de categoria bem superior ao primeiro. E assim existem milhares de exemplos de coisas não muito bem esclarecidas como “Baixa do sapateiro” chegar atrás de “Na mão direita”, e as escamoteações que já fizeram com Ari Barroso, Lamartine Babo, Araci de Almeida e tantos outros. A quantidade de nomes envolvidos nesses magros 10 contos da prefeitura daria para encher um número inteiro da revista, tais as coisas erradas que andaram fazendo.

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Meu pai, que é um homem muito vivido, me avisou diversas vezes: “não se meta com bicheiro, com polícia e com sambista”. E este pobre repórter que já teve uma experiência bem amarga com um bicheiro bebedor de champagne, lembra-se agora do conselho e pede perdão pela abstinência de maiores e mais esclarecidas citações. Mesmo porque, não adianta a gente querer endireitar esse negócio de concurso de carnaval. Todo mundo já se convenceu que só se ganha mesmo na marmelada. E para que discutirmos com a maioria?

ARACI DE ALMEIDA

“Concurso de carnaval? Esta é a maior “xavecada” existente no meio artístico popular brasileiro. Poderia contar muitas histórias sobre este “marmelo puro”, mas o que lhe adianto é que não compareço, não me interesso pela colocação das músicas que gravo, e se algum dia ganhar, será trabalho do compositor, tanto é que terei vergonha de ir buscar o prêmio”. E deixamos Araci com seu palavrear cheíssimo de bossa falando de 1934.

MARINO PINTO

É o mais despretencioso dos compositores nacionais. Compõe há muitos anos o que se chama de música de carnaval, e nunca interessou-se pela vitória no concurso. Disse que há quem ganhe concurso com pedido de ministro de Estado. “Cantoras principalmente”. Sabedor da solução proposta por Chiquinho, discordou, afirmando que a safadeza vem também das empresas que gravam, havendo inclusive interferência junto ao concurso.

MAESTRO CHIQUINHO

O maestro Chiquinho já foi selecionador de músicas para o concurso. Discorda plenamente da maneira com que se escolhe o vencedor, acha-a até ridícula, mas acentua a honestidade com que é feita. Em sua opinião, os vencedores deviam ser aqueles que mais discos vendessem de novembro a março. Perguntamos se achava de justiça, como composição, os que venceram esse ano, achou que não. “Reza”, é muito melhor do que ” Se eu errei “.

ARMANDO CAVALCANTE

O major Armando Cavalcante é um compositor surgido com a pureza quase não mais existente em nossa música popular. Com um outro major — Klecius —, apresentou o melhor dos últimos carnavais, impondo-se como dos grandes compositores da época. Suas músicas sempre finas e inteligentes nunca obtiveram uma colocação digna. Mas não é disso que se queixa; é do sistema de computar os votos. Segundo ele é “cretino, capcioso e infantil”.

BRAGUIHA

É o popular João Barro. Já compôs com grande parte dos compositores existentes, e já venceu com quase todos. É grandemente temido por todos, mesmo assim. A grande queixa contra ele é justamente o que declararam os entrevistados. “Um grande político”, afirmam uns, “faz questão de vencer” declaram outros. Mas a verdade é que Braguinha, além de bom compositor tem uma fábrica de discos por trás. Tem que ganhar.

HAROLDO LOBO

E Milton de Oliveira são bons compositores, não perdem nunca, quando não é primeiro, é segundo sua classificação. Conhecem todos os segredos do concurso, chegam até a escolher a melhor colocação de uma de suas músicas, visto que sempre concorrem com várias. E todo ano é a mesma coisa. O do centro é Ari Cordovil, que também é bom compositor, mas não ganha nunca, é anjinho. Não ganha e, parece, até hoje não desconfiou porque.

ARI BARROSO

“Quando me falam em concurso de carnaval é como se me dissessem que o Flamengo foi comprado pelo Vasco. Fico irritadíssimo”. Como realmente ficou ao externar sua opinião sobre esta vergonhosa corrida de prestígio às pessoas importantes, para no fim de muita “puxação” ganhar um dinheiro que absolutamente compensa o trabalho dispendido, já que a glória da vitória é tão obscura quanto os meios que empregam para merecê-la.

FERNANDO LOBO

Não só afirma que esteja tudo errado, vai muito além. Jura que seja marmelada. No ano de 1950 foi compositor premiado com a “Nega maluca’, parceria com Evaldo Rui, e ambos confessam que jamais teriam ganhado se não fosse a “proteção” de Renato Meira Lima. “Dá mais trabalho convocar a boa vontade de pessoas de mando para se ganhar o concurso do que planejar uma música de sucesso”, arrematou o cronista e compositor.

Revista Manchete

21 de Março de 1953

Pesquisa e digitalização: Leonor Bianchi

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Author: imprensabr