Karine Huet: A acordeonista francesa que veio ao Brasil saber mais sobre a sanfona no forró, mas se encantou pelo Choro e por Jacob


Por Leonor Bianchi

A musicista francesa Karine Huet é uma apaixonada pelos ritmos brasileiros, sobretudo, o forró e o choro, que diz ter oxigenado a música que ela fazia antes de vir ao Brasil.

Seu instrumento é o acordeão, muito tocado na cidade onde nasceu, Bretanha. E sua descoberta pela música brasileira se deu também através da sanfona. Um amigo que veio ao Brasil de férias retornou a França com um disco de forró e apresentou a Karine. Depois de escutar o disco ela ficou bastante interessada em conhecer mais sobre a sanfona,o forró e a música brasileira e veio ao Brasil atrás dessa história.

Uma vez no Brasil, karine conheceu muita muitos compositores e instrumentistas, produtores musicais. ‘Gente’ do forró e do choro. Fez questão de conhecer o Nordeste e chegou tocar com o saudoso Dominguinhos, que em uma ocasião, inclusive, tocou seu acordeão, um instrumento com características diferentes do dele, que, ao inves de ter um teclado de piano tinha o teclado ‘pronto’.

Depois de suas várias visitas ao Brasil, o sotaque de sua música mudou tão profundamente, que ela passou a trabalhar com a música brasileira em suas apresentações na França. Hoje, em seus espetáculos, Karine enfatiza a sanfona no forró e diz que há uma febre pelo ritmo em Paris nos últimos tempos.

Há 10 anos Karine criou uma roda de choro na Bretanha que ainda hoje, mesmo ela não morando mais na cidade, continua existindo a todo vapor. Apreciadora de Jacob do Bandolim e K-ximbinho, entre o circuito França – Brasil ela já esteve ou tocou com os chorões Zé Paulo Becker, Ronaldo do Bandolim, Eduardo Neves, Carrapicho, Dudu Oliveira, Gabriel Grossi, Cesar Roversi, Alessandro Penezzi, Vitor Lopes e Marcelo Caldi.

Vamos conhecer nesta entrevista um pouquinho da relação de Karine com o choro e a música brasileira. Boa leitura.

Karine Huet: Empolgada ao som do forró, com sua sanfona a francesa toca de cor 80 choros

Karine Huet: Empolgada ao som do forró, com sua sanfona a francesa toca de cor 80 choros

Revista do Choro: Você tem nacionalidade francesa? Em que cidade você nasceu? Qual sua idade?

Karine Huet: Sim, sou francesa; venho do oeste da França, da Bretanha (Rennes), e nasci numa pequena cidade que se chama Malestroit. Tenho 43 anos de idade.

Revista do Choro: Quando você começou a tocar sanfona?

Karine Huet: Comecei de tocar o sanfona aos oito anos.

Revista do Choro: A sanfona é o único instrumento que você toca?

Karine Huet: Infelizmente toco só sanfona, mas toco a de 96 baixos (a de 120) e a de 8 baixos daqui, que não é a mesma afinação da de sanfona de 8 baixos do Brasil. Tenho um cavaquinho aqui em casa e devo começar um dia!!!

Revista do Choro: Quando você esteve no Brasil pela primeira vez?

Karine Huet: A primeira vez foi em 2003.

Revista do Choro: Quais as outras vezes que esteve aqui?

Karine Huet: Era um tempo em que não havia Youtube e Facebook, tampouco Deezer ou Spotify (risos), e para aprendermos outra música tínhamos que viajar. Depois estive no Brasil em 2004, 2005, 2007, 2009 e 2012.

Revista do Choro: Quando você esteve no Brasil qual era seu intuito com a música? Você havia ganhado um disco de forró de um amigo que havia visitado o Brasil. De quem era esse disco, de que compositor de forró?

Karine Huet: Inicialmente minha ideia era fazer uma viagem etnomusicológico no Nordeste ; só eu e minha sanfona. O primeiro disco, esqueci o nome do grupo (ninguém no Brasil conheci (risos), mas as músicas foram muito conhecidas; havia muitas músicas de Dominguinhos.

Revista do Choro:  Quem te apresentou ao choro?

Karine Huet: Já ouvia falar do choro na França, porque as professores de violão usam o choro em suas aulas e nos conservatórios, mas foi viajando pelo Brasil que descobri as rodas de chorinho.

Revista do Choro: Qual compositor de choro chamou sua atenção quando você passou a ouvir esse gênero musical?

Karine Huet: Sou apaixonada por Jacob do Bandolim por K-ximbinho.

Revista do Choro:  Você já gravou algum CD de choro ou algum choro?

Karine Huet: Infelizmente, aqui não tem público para o choro. Mas forró eu já gravei.

Revista do Choro: Com quais chorões brasileiros você já tocou?

Karine Huet: Os músicos de choro que encontrei aqui na França e no Brasil foram: o Zé Paulo Becker, Ronaldo do Bandolim, Eduardo Neves, Carrapicho, Dudu Oliveira, Gabriel Grossi, Cesar Roversi, Alessandro Penezzi, Vitor Lopes, Marcelo Caldi…

Revista do Choro: E como você vê o choro na França?

Karine Huet: Praticar o choro aqui e complicado porque não tem um público para isso. Há muitas rodas de choro de níveis diferentes em Paris e outras cidades na França. Eu mesma, por exemplo, criei uma roda de choro em Rennes (na Bretanha), em 2007, hoje morro em Paris e ela ainda existe!

Revista do Choro:  Você esteve no último festival de choro de Paris, organizado pelo Club du Choro de Paris?

Karine Huet: Trabalhei para esse clube ano passado com a orquestra. Este ano minha agenda não permitiu continuar e infelizmente não fui ao festival porque estava com uma gripe muito forte, que me deixou de cama uma semana!!!

Revista do Choro:  Quais choros você sabe tocar com sua sanfona sem ler partitura?

Karine Huet: Acho que posso tocar 80 choros, no mínimo, de cor. Tem os clássicos de Pixinguinha, como Um a Zero, Cochichando, Naquele Tempo, mas também sei Noites Cariocas, Murmurando, Receita de Samba, Remexendo, Sonoroso, Um chorinho diferente, Um chorinho pra você, Vê se gostas, Deixa um breque pra mim, Diabinho maluco…

Revista do Choro:  Conte como é seu trabalho com música aí na França.

Karine Huet: Aqui ganho a vida com a música. É verdade que não é como o chorinho, mas tem um pouco de trabalho com forró aqui;  ele é um fenômeno agora em Paris. Acompanho muitos cantores de forró, mas de outros estilos também. Toco um pouco a música francesa também, mas a maior parte do meu trabalho é com música brasileira, ultimamente. Tenho um trio de música instrumental e brasileira e um quarteto também. Pra mim o choro é uma maneira de tocar. Eu uso essa maneira de tocar em minha música, atualmente! Fica mais criativo, e tocar choro na França em alto nível não é fácil porque não há muitas pessoas que quer praticar choro por aqui.

Revista do Choro:  Quando pretende voltar ao Brasil?

Karine Huet: Não sei; tive várias propostas, mas é difícil porque há uma enorme dificuldade para ajustar a agenda e se organizar para uma viagem onde a gente siga tocando, trabalhando…