Artista de rua, artista de rede: o trabalhador da Cultura se reinventa num Brasil pandêmico


Leonor Bianchi

Bom dia, trabalhadores brasileiros e de todo mundo!

Eu sou Leonor, jornalista, editora da Revista do Choro, e esta um pouco da minha história como trabalhadora e militante por melhores condições trabalhistas.

E você?… E vocês?

Quais são as demandas da sua categoria?

Vamos à luta mesmo estando em casa!

A internet é a ferramenta da transformação social, cultural e política do momento. Saibamos usá-la a nosso favor. Manifestações presenciais não podem acontecer, o trabalhador deve se expressar através das redes sociais.

Já trabalhei em muitos dias primeiro de maio. Durante alguns anos fui responsável pela comunicação de um dos maiores sindicatos de servidores públicos municipais da Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro, em Rio das Ostras. Uma prefeitura enorme, rica em função do recebimento de royalties do petróleo da Bacia de Campos, com milhares de servidores, muitos não concursados; contratados. Complicado.

Criei um cineclube no sindicato com rodas de debate, desenvolvi uma nova interface virtual (site) para a comunicação da entidade com os servidores, estive junto ao coordenador e sua chapa quando o sindicato teve a oportunidade de usar (tardiamente, pois o município tinha sido emancipado de Casimiro de Abreu há mais de 15 anos e ainda ninguém havia usado) pela primeira vez a Tribuna da Câmara Municipal de Rio das Ostras, numa ocasião onde era votado às escuras e sem consulta pública o Plano de Cargos e Salários dos servidores públicos municipais daquela cidade.

Além de produzir o jornal do sindicato, publicado mensalmente impresso e em PDF pelo site do sindicato – e distribuído para todos os servidores – eu ia pessoalmente em vários setores da prefeitura distribuir o jornal e também “fazia frente” na porta da mesma distribuindo o jornal em datas como as de hoje, ou no dia 28 de outubro, Dia do Servidor Público. Colaborei com diversas ações promovidas pela entidade.

Fora do sindicato militei em dezenas de outros segmentos, como no da Comunicação, lutando para criarmos o Conselho Municipal de Comunicação de Rio das Ostras; estive à frente de muitos debates que pensavam a criação de políticas públicas para o segmento de Cultura neste município e nos municípios vizinhos. Fui presidente da primeira associação cultural de Rio das Ostras, a qual ajudei a fundar, a Acra, Associação Cultural Rio das Artes.

Integrei, praticamente, todos os conselhos municipais da cidade, de Cultura, Educação, Alimentação Escolar, passando pelo de Transporte, Assistência Social, Meio Ambiente, Urbanismo, Orçamento Participativo, Segurança Pública dentre outros.

Participei de todos os núcleos que se formavam para debater políticas municipais na cidade.

Cheguei a ter o meu próprio jornal e, através dele, pude dar voz a muitos trabalhadores da cidade e da região. E as demandas eram muitas!

Dia do Trabalhador é dia de protesto, de pedir melhores condições de trabalho, de pedir direitos para todos os trabalhadores; os que estão na ativa e os aposentados.

Hoje estou longe do corpo a corpo das ruas, estou na mata, meditando, refletindo, me curando. Mas sempre militando!

Hoje produzo conteúdo para jornalismo cultural, especificamente para música. Sou a idealizadora e editora da Revista do Choro, a única publicação dedicada ao gênero no mundo.

Sabemos que o segmento da Cultura, e dentro dele o da música, está muito abatido sob os reflexos da economia que se retraiu em função da pandemia do Covid-19, contudo, novos caminhos se abrem, novas possibilidades de trabalho virtualmente são criadas… O brasileiro é criativo e tem tentado contornar o quadro.

Não foram poucos os artistas contemplados pela lei Aldir Blanc que estão podendo viver com certa dignidade o período tão delicado que todos enfrentamos. Existem muitas críticas com relação à lei, sua aplicação, em algum momento existem críticas também com relação a alguns artistas que foram contemplados, pois algumas pessoas sempre são as mesmas ‘nesses editais’ e isso é questionado, mas o fato é que foi uma conquista importante para a categoria, para todos da Cultura. Então, não devemos ‘malhar’ a lei, e sim, aprimorá-la, inserindo, por exemplo, os artistas de rua neste benefício (a lei é o benefício) pois o período de fragilidade econômica continua, e, segundo os relatórios que têm sido apresentados, o segmento da Cultura seguirá sendo um dos mais prejudicados tendo em vista que também será um dos últimos a voltar plenamente às suas atividades e ao seu pleno vigor.

Segmento editorial foi um dos mais prejudicados

O segmento editorial foi um dos que teve mais perdas com relação ao número de pessoas desempregadas em função da pandemia. Muito mais do que as artes cênicas e a música, segundo  o relatório Dez anos de economia da cultura no Brasil e os impactos da covid-19 – um relatório a partir do Painel de Dados do Observatório Itaú Culturalapresentado em dezembro do ano passado pelo Itaú cultural.

Segundo a assessoria de imprensa do projeto:

Com foco nos desafios que a pandemia do novo coronavírus impôs a agentes culturais no Brasil, o Itaú Cultural desenvolveu e lançou o estudo Dez anos de economia da cultura no Brasil e os impactos da covid-19 – um relatório a partir do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural.

Para embasar a análise, o relatório traz informações sobre os últimos dez anos de economia da cultura, considerando a evolução histórica do setor. Assim, recorre a diferentes fontes oficiais – a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), a Pesquisa Anual de Serviços (PAS), a Pesquisa Industrial Anual (PIA), a Pesquisa Anual de Comércio (PAC) e o Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), entre outros indicadores reunidos no Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, plataforma on-line que, lançada em abril deste ano, apresenta dados sobre a economia criativa e da cultura.

O estudo aborda três eixos: financiamento público, trabalhadores e empresas criativas e comércio internacional de produtos e serviços criativos.

Entre os tópicos levantados, está o referente à execução orçamentária por parte das secretarias estaduais de cultura em 2020, obtido por meio de pesquisa inédita realizada com gestores estaduais e focada na readequação dos orçamentos em função dos protocolos de funcionamento no contexto da pandemia.

Com a análise da série histórica, também é possível observar um melhor desempenho dos orçamentos dedicados à cultura nas esferas estadual e municipal, em comparação com a federal. A recém-sancionada Lei Aldir Blanc, que estabelece ajuda emergencial para artistas e outros profissionais da cultura atingidos pela pandemia, também é considerada no relatório, que analisa o impacto dos recursos aportados nos orçamentos públicos dos estados e capitais brasileiras.

A pesquisa ainda analisa a evolução do perfil dos trabalhadores e das empresas dos setores cultural e criativo no Brasil, e reflete como as diferentes instâncias que os compõem foram afetadas pela pandemia. Merecem destaque, nesse sentido, os dados referentes ao comércio internacional em áreas como as de atividades artesanais, moda e tecnologia da informação, que contribuem positivamente para a balança comercial brasileira.

Espera-se que o relatório contribua para a atuação de agentes culturais e gestores públicos no enfrentamento às dificuldades colocadas pela pandemia de covid-19 e que aponte para estratégias de desenvolvimento dos setores cultural e criativo, evidenciando sua importância para a economia brasileira”.

Clique aqui para acessar o relatório.

Artista de rua, artista de rede

Com relação ao segmento cultural, hoje as demandas são inúmeras. Nosso Ministério da Cultura foi desmontado e com ele todas as ações de incentivo e fomento ao setor. Vimos ser jogados no lixo os últimos 20 anos da construção do Plano Nacional de Cultura e com ele os estaduais e municipais, e muitos instrumentos e mecanismos de fomento à cultura no Brasil.

Talvez o momento seja oportuno para utilizar a internet para este salto cultural onde mais pessoas tenham acesso à informação e possam escolher pela qualidade do que querem consumir em nível de informação. Talvez seja o momento histórico mais oportuno para a democratização da informação, da arte e da cultura. Temos que encontrar alternativas para seguir adiante. Uma das discussões do momento deve-se voltar para o acesso gratuito à internet no Brasil, sobretudo, para pessoas de baixa renda, estudantes, aposentados… artistas de rua.

Revista do Choro resiste há 8 anos sem editais de cultura e anunciantes

A Revista do Choro não conta e nunca contou com nenhum patrocinador. Todo trabalho que vocês veem neste site é produzido por mim… e como aqui as contas não param de chegar e eu não tenho patrocinadores, preciso vender essa pesquisa de conteúdo, essa produção de conteúdo que vocês encontram na Revista do Choro. Portanto, se você for um trabalhador brasileiro em condições de dignidade neste momento de fragilidade econômica para praticamente todos os trabalhadores do mundo, e for do seu interesse, apoie, fomente este projeto editorial e de valorização à cultura brasileira que é a Revista do Choro.

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Crédito da tela que ilustra essa publicação: Pieter Bruegel, Triunfo da Morte (1562)
Evocação ao cenário de pragas e epidemias e conflitos que atingiram a Europa.