Documentário em homenagem a Garoto retoma gravações e entra em fase de finalização ainda este ano


Leonor Bianchi

Como não seria diferente de outros segmentos ligados ao setor cultural, trabalhar com cinema é tarefa árdua. Quem atua profissionalmente no setor audiovisual no Brasil conhece bem as imbricações que envolvem a produção de um filme até ele chegar às salas. Cinema custa caro, envolve centenas de pessoas numa equipe de trabalho, e o fluxo da cadeia produtiva do ‘negócio’, que seria também, depois de fazer o filme, distribuir e exibir o mesmo; e ainda, ter uma cópia, ou mais, da obra guardada em centros de documentação ou cinematecas, para sua preservação, precisa ser concluído.

Onde falta verba, sobram excelentes profissionais escrevendo, roteirizando, pensando cinema… E da cabeça brilhante dessa galera nova surgem também novos argumentos para novos filmes e personagens a serem revelados pelo cinema brasileiro. É uma turma que ainda se vê diante do mesmo desafio de Glauber Rocha no tempo do Cinema Novo; o de fazer um cinema sem estrutura, sem orçamento. “Estúdio nem pensar! Vamos fazer o set na rua (externa) para ‘aproveitar’ a luz natural do dia!”, pensava-se naquele tempo. Não ter de pagar aluguel em um estúdio era a única alternativa para o cinema brasileiro nos anos de 1950. Além disso, o lance ali era muito ideológico; era romper com a ‘lógica do estúdio’, uma rotina totalmente estadunidense (como diria Glauber), que inviabilizava a produção de cinema no Brasil. A criatividade dos ‘cineastas pobres’ do terceiro mundo produziu um cinema de excelência, onde planos longos e cortes secos, para não gastar película – já que a matéria prima era caríssima -, foram pensados na exata medida pelo diretor, para que a técnica se aliasse/ alinhasse à imaginação, à arte, e ao orçamento extremamente reduzido que tinham para a realização do filme. O resultado desse tempo de guerra para o cinema brasileiro foi um legado de filmes grandiosos, produzidos por nomes geniais, como o próprio Glauber, Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos, Julio Bressane, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Paulo Cesar Saraceni… só para citar alguns, com mais de centenas de filmes produzidos nesse período, mas infelizmente até hoje pouco ou nada conhecidos entre os próprios brasileiros.

Brasileiros que provavelmente desconhecem também a figura de Aníbal Augusto Sardinha (São Paulo, 28 de junho de 1915 — Rio de Janeiro, 3 de maio de 1955) revelada no filme de Rafael Veríssimo, diretor do documentário longa-metragem ‘O Gênio das Cordas’ sobre a vida e a obra deste que fora um dos maiores violonistas brasileiros.

Aníbal Augusto Sardinha 0 Garoto

Aníbal Augusto Sardinha 0 Garoto

Segundo Veríssimo:

“Garoto se apresenta alicerçado em três grandes pilares que sustentam a argumentação em cima de sua figura pioneira naquilo que veio a ser chamado de bossa nova; foi pioneiro no papel de modernizador do violão brasileiro, já que desenvolveu uma nova linguagem para o instrumento, deixando um grande legado seguido por Baden Powell, Raphael Rabello, Yamandu Costa, e tantos outros grandes instrumentistas de gerações que o sucederam, e o fato de ele ter sido um multiinstrumentista – o gênio das cordas -, e não ser aquele que arranhava, mas sim tocava com extrema competência bandolim, cavaquinho, banjo, guitarra havaiana violão, guitarra elétrica, violão tenor, criado por ele com os Del Vecchio; apresentava-se com todos eles de maneira única”, observa Veríssimo.

Documentário voltou a ser gravado em set com os irmãos Bueno e o filho do violonista

Na semana dos 101 anos do nascimento de Garoto, em junho último, conversei com Rafael Veríssimo, que estava em outra produção, na Amazônia. Queria saber em que fase está o processo de gravação, quem ele já entrevistou para o documentário, e o que teria para adiantar ao leitor da Revista do Choro sobre o filme. No domingo, 3 de julho, o filme voltou a ser gravado em um set onde foram entrevistados os ilustres chorões Izaias Bueno e seu irmão Israel Bueno, com a presença do filho de Garoto, Antônio Augusto Sardinha.

As gravações do longa-metragem começaram há mais de dois anos e a previsão é de que o filme entre em processo de finalização em outubro.

“Demos um tiro inicial de gravação, mas depois paramos para refazer a agenda da produção em função da falta de orçamento, pois havia muita gente envolvida. Paramos, mas, recentemente, eu, enquanto diretor do filme, decidi tocar a continuação das gravações como der, e aos poucos estamos retomando as gravações. Entrevistamos recentemente o bandolinista Izaias Bueno e seu irmão Israel, juntos com o filho de Garoto; o Antônio”, contou Veríssimo, que vai aproveitar o encontro dos músicos que estarão este mês na grande homenagem a Garoto, no espetáculo 100 anos de Garoto: o gênio das Cordas, no Sesc Pinheiros, para captar mais imagens e entrevistas para o documentário.

Grades nomes do choro e da música instrumental brasileira estarão no filme

“No começo de 2014 buscamos entrevistar algumas pessoas que julgávamos mais importantes para serem entrevistadas naquele momento. Entrevistamos o Zé Menezes; acho que talvez tenha sido a última entrevista que ele deu, pois fizemos a entrevista em fevereiro de 2014 e ele faleceu meses depois. Essa fala dele deve servir como uma base importante para o filme, pois ele foi um cara que conviveu com Garoto e era uma das últimas figuras que representava essa escola dos multiinstrumentistas de cordas da qual o Garoto foi um precursor e o ele um seguidor. Além de chorões, entrevistamos também nomes ligados à Bossa Nova, como João Donato, Roberto Menescal, Carlos Lyra. Conversamos como biógrafo do Garoto, o Jorge Mello, que é consultor e parceiro do filme e pessoa muito importante para a construção do documentário; com outro grande estudioso da obra de Garoto; Mario Albanese; João Donato; Jorginho do Pandeiro, Paulo Bellinati, figura importante para a recuperação da memória musical do Garoto; e também com o cavaquinista Henrique Cazes e o violonista Marcello Gonçalves. Nesta fase gravamos praticamente entrevistas. Vamos conversar ainda com o violonista Yamandu Costa, e pretendemos também entrevistar o Egberto Gismonti. A previsão era lançarmos o filme este ano, pois acreditávamos que conseguiríamos captar recursos, mas não isso aconteceu. No atual cronograma, o filme entra em processo de finalização em outubro”, explica Rafael.

Na foto de Lucas Nobile feita em um dos sets de gravação do doc., nosso saudoso Zé Menezes (essa gravação para o filme foi sua última entrevista) e o violonista Marcello Gonçalves.

Na foto de Lucas Nobile feita em um dos sets de gravação do doc., nosso saudoso Zé Menezes (essa gravação para o filme foi sua última entrevista) e o violonista Marcello Gonçalves.

O desafio de criar um filme sobre uma personagem da qual não há registros imagéticos

Foi do acervo do biógrafo de Anibal Augusto Sardinha, Jorge de Mello, que vieram muitas ideias para contar a história de Garoto para o filme. Fotografias e dois curtos trechos de filmes onde Garoto aparece em movimento são tudo o que existe sobre a figura dele. O acervo com partituras, áudios e manuscritos pertencente ao Jorge Mello foi fundamental para ajudar a construir a narrativa do filme, como ressalta diretor musical do filme, o pianista Henrique Gomide.

Capa de um dos álbuns de fotografia que pertenceu a Garoto. Acervo: Jorge de Mello.

Capa de um dos álbuns de fotografia que pertenceu a Garoto. Acervo: Jorge de Mello.

“Temos um grande desafio, que é criar um documentário sobre uma personagem da qual não se tem imagens. O que existe de Garoto é um trecho muito curto de um filme tocando com a Carmem Miranda, e na Cinemateca Brasileira há o trailer de outro filme também bem curto chamado ‘Fazendo fita’, onde ele aparece durante poucos segundos, ainda muito jovem. Apesar de ser um desafio é algo muito estimulante porque somos obrigados a contar a história dele através da musica, dos arquivos, dessas entrevistas que estamos fazendo com outros músicos, de execuções musicais, e isso dá base para muitas ideias e possibilidades”, considera Gomide, que conta como surgiu a ideia de fazer o filme.

“A produção musical do documentário começou em 2012 quando fui para a Holanda fazer um mestrado sobre Garoto com o meu trio, o Caixa Cubo. Trabalhei em adaptações da obra dele para piano solo e acabei me debruçando bastante sobre seu repertório e sobre sua história. Durante minhas pesquisas, encontrei com o Jorge de Mello, que escreveu a biografia do Garoto, ‘Gente Humilde, vida e obra de Garoto’. Hoje, o Jorge é uma das maiores autoridades para falar sobre Garoto, uma vez que ele teve a felicidade de se encontrar com a segunda esposa do compositor pouco tempo antes de seu falecimento, e nesse encontro ela lembrou que havia uma mala repleta de documentos que Garoto havia deixado, e deu essa mala para ele, para o Jorge. Na mala havia cadernos, esboços, partituras, fotos e um farto material, que por fim, acabou ficando com o Jorge. Estamos estudando esse acervo e tendo-o como base para a criação do documentário.

Dessa parceria com o Jorge Mello nasceu a ideia de fazer um livro de partituras com várias composições de Garoto, não só as mais consagradas, mas também muitos choros e músicas inéditas que estavam nesse acervo do Garoto que ficou para o Jorge Mello e ainda são desconhecidas do público. Juntamente com esse processo tivemos a ideia de gravar um sobre Garoto e de fazer esses espetáculos musicais que acontecerão agora em setembro, no Sesc Pinheiros, em São Paulo”, conta Gomide.

Pelo olhar do diretor do filme, a história de Garoto deve ser contada de uma forma mais contemporânea para atrair o público.

“Em alguns momentos, pensamos em animação, em dramatização, mas são formas de abordagens, são linguagens cinematográficas que exigem dinheiro e como não temos recursos, decidimos que faremos o filme dentro das nossas possibilidades, ou seja, entrevistando as pessoas, usando esse belo material ao qual temos acesso, usando imagens e sons de arquivo, e por aí vai”, observa Veríssimo.

Como revela Gomide:

“Uma das ideias é que a cronologia da vida do Garoto seja apresentada no filme através das composições de cada período. Temos a felicidade de ter tudo catalogado também por datas, então conseguimos ter uma boa ideia de como foi o desenvolvimento dele, como era o universo musical no começo de sua carreira, nas rádios paulistanas, e como eram essas composições. Depois, quando ele volta dos EUA, no início doa anos 1950, bastante influenciado pelo jazz, e isso pode ser bem percebido em suas composições desse período. Então, embora o material que tenhamos para trabalhar seja limitado em termos de imagens, é muito rico em composições, em fotos, arquivos radiofônicos… E com tanta gente boa motivada a colaborar com o documentário, a gente vai chegar num resultado muito legal.

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Esse festival que vai acontecer agora em setembro será muito importante para gerar material para o filme porque estaremos com vários músicos excelentes reunidos para tocar a obra de Garoto, e a ideia é captar imagens, fazer entrevistas e dar vida diante da câmera a histórias que estão apenas no boca a boca há muitos anos”, ressalta Gomide, que segue:

“Sobre a produção musical do documentário temos duas preocupações principais: uma é apresentar o Garoto para quem nunca ouviu falar nele, que é a grande parte do povo brasileiro, então fazemos questão que as composições mais conhecidas dele estejam no documentário, ou em forma de gravações originais, ou em grandes execuções, mas temos também a preocupação de apresentar músicas inéditas e dar vida a essas partituras que estão guardadas há tantos anos e para isso contamos com a participação de vários músicos que já se comprometeram a colaborar com o documentário, como o Yamandu Costa, Egberto Gismonti, Paulo Belinatti, Izaias Bueno, Hamilton de Holanda, que tem interesse em criar essa homenagem tão importante”, conclui o diretor musical do filme.

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Author: imprensabr