Gabriele Leite: a ‘Guria’ que está levando o violão brasileiro para o mundo


Leonor Bianchi

Acompanhando as tendências que o violão brasileiro exporta, conheci o trabalho da jovem violonista Gabriele Leite. Aos 22 anos, ela vem de uma trajetória comum a muitos músicos formados por ações sócio educativas através da música. Integrante do projeto Guri, original de São Paulo capital, mas que teve base na sua cidade natal, Cerquilho, interior do estado, ela já participou de inúmeros congressos, festivais e concursos de violão. Em 2018 ganhou competições nacionais, como o I Concurso Nacional de Violão Assovio Vertentes, o XXII Concurso Nacional de Violão Musicalis e o XXIX Concurso de Violão Souza Lima. Foi vencedora nos turnos I e II e na categoria de música de câmara em edições dos concursos Souza Lima e Musicalis. Também foi selecionada como bolsista nas últimas três edições do Festival Internacional de Violão de Campos do Jordão e, em 2019 foi semifinalista do concurso internacional de violão, e premiada como a melhor participação brasileira no 27º Festival Internacional de Violão de Koblenz, na Alemanha.

Leia nesta entrevista como Gabriele Leite iniciou seus estudos musicais, quem foram seus professores, quem é seu luthier e quais são os projetos desta promissora violonista brasileira, que diz amar o choro, mas não domina ‘tanto assim’ o gênero e justamente por isso tem vontade de criar um regional só de mulheres para estudar prática de conjunto voltada para o choro.

DSC04790

1. Revista do Choro: Qual a sua memória mais antiga do seu contato com a música?

Gabriele Leite: Desde muito cedo meus pais incentivaram à escuta de música. Lembro que todo sábado à tarde, eu e meu pai costumávamos assistir algumas fitas alugadas. Depois vieram os DVDs de alguns artistas famosos no meio musical. Lembro que era dinâmico, passava de Pavaroti, alguns concertos de orquestras, até bandas de rock dos anos de 1960/ 70 a James Brown (de quem inclusive meu pai é um super fã). No mais, a audição e a apreciação foram os primeiros contatos.

2. Revista do Choro: Conte-nos um pouco como foi a sua infância na cidade de Cerquilho, interior de São Paulo: onde você estudou, quem eram seus amigos mais próximos na escola, e quais  aventuras vocês aprontavam?

Gabriele Leite: Quando eu tinha uns três anos de idade, conta minha mãe, eu chorava muito querendo ir para a escola, mas por conta da minha idade eu tinha que esperar um pouco mais, e quanto isso se realizou eu fiquei super feliz, entrando na pré-escola e me alfabetizando. Eu sempre gostei de correr pelo quintal, jogar bola, andar de bicicleta, subir em árvore, e entre essas aventuras eu tive todos os tombos possíveis. Quis saber qual era o sabor da gasolina, afinal é parecida com refrigerante… (nessa eu quase fui desta para uma melhor), até cirurgia por conta de uma hérnia eu já fiz. Eu nunca tive muitos amigos próximos, tenho uma irmã mais velha cinco anos, e nós fazíamos o possível para nos darmos bem e dividirmos nossos brinquedos e brincadeiras. As pessoas até estranham o nosso relacionamento de irmãs, pois nós quase nunca brigamos. Confesso, que certas vezes eu a tirava do sério, alguns chinelos que ganhavam asas, ou sapatos que queriam descobrir o que tinha em cima do telhado além de dentes… Agora, sobre a escola, eu gostava mesmo de aprender, e na hora da recreação, nossa, virava do avesso! Rolava barranco abaixo com papelão, brincava no monte de areia, pegava micose, jogava bola. E quando fui ficando mais velha aprendi a ter amigos, poucos, mas os guardo no coração até hoje. Minha professora de Educação Física do ensino fundamental dizia que eu deveria seguir carreira nos esportes, mas a música sempre esteve tão presente quanto os esportes; digamos que eu ame os dois.

3. Revista do Choro: Sua mãe é costureira, dona (Edelzuita R. Santos Leite), e seu pai era mecânico industrial; o senhor Roberto Leite. Você tem irmãos? E… como a filha deles foi parar no meio da música erudita com o violão? Qual memória você traz da sua infância com relação aos seus pais e a influência que eles tiveram em sua vida para que você fosse uma instrumentista? Alguém da sua família tocava ou toca algum instrumento? Como ainda na infância você se interessou por música? 

Gabriele Leite: Bom, lá vai um pergaminho de resposta. Eu tenho uma irmã mais velha, o nome dela é Ana Paula Leite. Ela até sabia tocar flauta doce quando aprendeu na escola; já eu sou uma negação para instrumentos de sopro… Eu sempre tive uma enorme admiração pela minha irmã, afinal de contas alguém chegou antes e sabe como os esquemas funcionam em casa. Algumas memórias de infância me trazem o sentimento de liberdade com responsabilidade, meus pais sempre foram tranquilos com deixar eu e minha irmã viajar, fazer excursão, brincar na praça, ir na casa de colegas, e nesse caso entra a figura pela qual eu tenho uma admiração infinita, que é a minha mãe. Ela nunca escondeu verdade alguma de nós sobre a vida, nas responsabilidades, que por exemplo a roupa não volta pro guarda roupa sozinha, ou então que pode-se gastar com vários doces no mercado e não precisar comer a famosa comida de verdade… Ela, um pouco mais incisiva que meu pai, nos mostrou desde sempre que devemos ter consciência das coisas, sejam elas financeiras, domésticas ou de relacionamento. Meus pais vêm de origem pobre e lutaram e lutam até hoje para um bem estar da família. E acredito que a somatória dessa criação hoje se reflete muito na maneira como a qual eu faço música, que é esse lance entre o divertido e responsável. Na minha família eu tenho algumas influências de tios que se habilitam a tocar violão, mas mais voltado para uma atividade de lazer; ninguém de fato seguiu na carreira musical. E uma coisa que sempre ficou clara é a paixão pelo violão que meu pai tem. Ele chegou a fazer umas aulas, mas na época o professor acabou sendo sincero com ele e disse que ele precisava de disciplina para prosseguir, e acabou que ele não foi a fundo. Então, sei lá… um pouco da minha vontade de me tornar violonista vem de realizar um sonho do meu pai de ser um violonista. Na infância o interesse pela música floresceu desde quando eu aprendi as primeiras notas no violão. Ler partitura foi mágico! Entender aqueles códigos todos… Eu fiquei encantada com toda essa grandiosidade. O resto foi e são muitas horas de dedicação.

4. Revista do Choro: Qual foi a primeira vez que você pegou um instrumento para tocar? Você tinha quantos anos?

Gabriele Leite: Nossa! Aí está algo que eu não tenho memória, mas nos encontros de família tinha um irmão do meu pai que tocava violão e eu sempre o observei, mas ele não deixava a garotada tomar conta do violão dele rsrs. Do lado da família da minha mãe também havia um tio-avô que mandava bala no violão nesses encontros de família. Mas eu não lembro a primeira vez que experimentei segurar um violão ou alguma experiência parecida.

5. Revista do Choro: Quem lhe deu o seu primeiro violão e que instrumento era esse?

Gabriele Leite: Eu lembro, que foi no aniversário de seis anos quando um tio-avô (Éfito Reis) me presenteou com um violão desses de modelo menor. E foi pura alegria ver que saia um som de verdade. Até então eu só tinha violões de brinquedo, e raramente via um tio (irmão do meu pai) tocar em alguns encontros de família.

6. Hoje em qual violão você estuda e por que você escolheu esse investimento?

Gabriele Leite: Atualmente eu tenho um violão do luthier Antônio Tessarin, e essa história é fantástica. Bom, eu não tinha meios de comprar um violão e minha família até então também não tinha. Eu estava no meu quarto, ano de conservatório, tinha ganhado um violão em um concurso em São Paulo uns dois anos antes, e eu lembro que tinha feito o teste de bolsas no Conservatório de Tatuí e tinha passado; fiquei muito feliz, afinal pela primeira vez eu iria ganhar dinheiro fazendo o que mais gosto, tocando e estudando. E nesse ano eu comecei a fazer aulas com a professora Angela Muner, que teve um papel para lá de especial na minha vida. Foi quado as coisas começaram a ficar mais densas na rotina de estudo: viagens até Tatuí, dar conta do repertório, uma infinidade de coisas. Eu acabei percebendo que o instrumento que eu tava já não comportava minha técnica, e depois de algumas pesquisas, eu pensei: “Por que não um violão do Tessarin, afinal de contas moramos na mesma cidade?” E fui conhecer o espaço onde ele trabalha e desde então não perdi mais o contato com a pessoa especial que é o Tessarin. E como fizemos para pagar esse investimento? Demos um jeito! Minha bolsa ia quase de maneira integral para pagar o empréstimo feito. Então, em 2014 comecei a percorrer outros caminhos, graças a todas essas pessoas que sempre me deram força, e ao instrumento magnífico que o Tessarin fez.

7. Revista do Choro: Você já tocou outro instrumento além do violão?

Gabriele Leite: Não, o violão sempre foi o foco. Mas pra não falar que não, no final do ano, quando viajo para casa do meu tio-avô (aquele que me deu o meu primeiro violão), eu me atrevo a tocar cavaquinho, mas só no experimentalismo.

8. Revista do Choro: Na sua cidade natal, Cerquilho (SP) havia alguma escola de música onde você iniciou o seu estúdio musical teórico e prático ao violão, ou você apenas foi ter seu primeiro contato com aulas de música através do projeto Guri, quando este foi para a sua cidade? Quem eram seus professores nessa época?

Gabriele Leite: O primeiro contato foi apenas pelo Projeto Guri, minha família não tinha condições de pagar aulas de música, então, o meio pelo qual se resultou meu estudo foi todo público. Meu primeiro professor de violão e teoria foi o André Paschoal, mas passaram muitos professores no Guri, em Cerquilho, até chegar uma professora que ficou e está por lá até hoje, Josiane Gonçalves.

9. Revista do Choro: Como foi a sua experiência como aluna do projeto Guri?

Gabriele Leite: Foi a melhor possível, eu aproveitei todas as oportunidades que o Guri dava. Esse lance de apresentação desde sempre é uma ferramenta super importante na etapa de um músico, o público, e como no Guri você tem isso logo cedo, já faz com que você tenha um outro olhar para certos desafios que irão aparecer na vida, como tocar sozinha, falar em público, saber se comunicar com os colegas de profissão, enfim é uma infinidade de aprendizados. E as aulas coletivas, que ensinam muito sobre respeito e disciplina.

10. Revista do Choro: Depois do Guri você iniciou uma nova caminhada na qual permanece em evolução… Foi para o Conservatório de Tatuí (SP), depois para a UNESP, onde foi orientada em seu bacharelado no curso de violão pela professora Gisela Nogueira, renomada figura feminina na pesquisa do violão clássico nacional, e hoje tem aulas com Paulo Martelli. Fale um pouco sobre seus professores e como você traduz a presença desses mestres no seu caminhar como pesquisadora e instrumentista de violão?

Gabriele Leite: Bom, tudo começou no Guri quando eu conheci a Josiane Gonçalves, que foi minha primeira orientadora, e quem me auxiliou a pensar um pouco mais alto, indo para Tatuí, e desde 2010, ano em que ingressei no Conservatório de Tatuí, venho tendo cada vez mais as melhores orientações. Passei por alguns bons mestres, que aqui eu deixo minha recordação: Jair Teodoro de Paula, (inmemória) (2010), Juliana Oliveira (2010), Josiane Gonçalves (2009-2012), Ricardo Grion (2011 – 2013), Angela Muner (2013 – 2015), Edson Lopes (2015), Luciano Morais (2016), Gisela Nogueira (2017 – 2019) e Paulo Martelli (2016 – atual). Por todos eu tenho uma grande admiração e carinho. Eles fizeram e fazem um trabalho incrível com os alunos. Bom, falando um pouco dos meus recentes professores, gostaria de falar da Gisela Nogueira, que tem importantes trabalhos de pesquisa no Brasil, e entre tantas presenças masculinas no meio do violão, é professora de uma importante universidade (UNESP), aqui em São Paulo. A admiração já começa por ela ser mulher e violonista, uma coisa que é um tanto quanto rara. No meu caminho, eu tive sorte de sempre ter professoras que me acompanharam e isso faz uma enorme diferença, porque temos uma supremacia masculina nesse meio, que vem até mudando ao longo dos anos… Ela me moldou sobre a questão da pesquisa acadêmica: ir atrás de ler boas referências, trazer algumas novidades na hora de estudar, preparar e apresentar uma peça. E Paulo Martelli, que faz um trabalho excepcional com seus alunos, eu tenho o grande privilégio de poder fazer aulas com ele por meio da bolsa de estudos Cultura Artística/Magda Tagliaferro. Esta bolsa me trouxe oportunidades que eu não imaginava poder experimentar tão cedo. Paulo vem me moldando como concertista, nossas aulas são altamente aulas de música, que vão muito além do violão e como ele passou por graduação, mestrado e doutorado está muito ligado a esse ambiente acadêmico, ou seja, a busca à leitura e entendimento da história da música e do violão são bem presentes em nossas aulas. Além de ser uma pessoa incrível tanto como professor como quanto amigo; ele é um mestre que cuida dos alunos muito bem.

11. Revista do Choro: Como você vê e se percebe num ambiente eminentemente masculino, que é o ambiente do violão, embora tenhamos hoje no Brasil renomadas pesquisadoras, compositoras e intérpretes do instrumento, como Márcia Taborda, Maria Haro, Mayara Amaral, a sua orientadora…

Gabriele Leite: As coisas são um tanto complexas. A predominância masculina acaba por se fazer muito presente em ambientes acadêmicos, então, sim, ainda temos muito machismo. E dentro do mundo do violão as coisas vão para além, existem algumas falas bem presentes que ainda escutamos, como: “mulher toca com delicadeza”, “essas mãos delicadas precisam de mais força”, “ela precisa ter resistência para tocar isso ai”… Bom, no final das contas acaba que eles enxergam nós mulheres como seres frágeis que não têm capacidade de ser violonista, por exemplo, mas isso está mudando aos poucos. O importante é a quebra dessas falas. Mas só de ver no cenário atual que temos muitas profissionais que estão lutando por espaço já me alegra muito. Nós vivemos em constante aprendizado, então, é uma questão estar em constante desconstrução. Eu já escutei muitas e muitas vezes essas falas vindas de pessoas da família, de alguns professores e colegas, mas eu tento surpreende-los fazendo, pois é o caminho pelo qual eles se calam.

12. Revista do Choro: Você é uma exímia intérprete ao violão. E com relação à composição; você também compõe?

Gabriele Leite: O caminho da composição é algo que eu tenho guardado ainda, nada veio a público e isso é muito pela correria dos meus últimos dez anos, mas as ideias são muitas. Mas, não, não tenho composições ainda!

13. Revista do Choro: Você já participou de inúmeros congressos, festivais e concursos de violão. Em 2018 você ganhou competições nacionais de violão, como I Concurso Nacional de Violão Assovio Vertentes, o XXII Concurso Nacional de Violão Musicalis e o XXIX Concurso de Violão Souza Lima. Em edições anteriores dos concursos Souza Lima e Musicalis, você venceu nos turnos I e II e na categoria de música de câmara. Também foi selecionada como bolsista nas últimas três edições do Festival Internacional de Campos do Jordão, e agora, em 2019, foi semifinalista do concurso internacional de violão e premiada como a melhor participação brasileira no 27º Festival Internacional de Violão de Koblenz, na Alemanha. Como você se sente sendo uma mulher com apenas 22 anos de idade representando o Brasil em congressos dessa dimensão, com a responsabilidade de não decepcionar não só os professores, como o público brasileiro. A música lhe deu responsabilidades que você imaginaria ter na sua idade?

Gabriele Leite: Nossa! Sobre tudo isso, eu acho incrível! De fato eu não imaginava chegar a todos esses lugares com o violão. Desde cedo eu não sou lá tão criativa em pensar em coisas do futuro, eu gosto de viver cada dia, sabe? Lógico que isso não me baniu de sonhar e fazer alguns planos, que todos que planejei não aconteceram como eu imaginava, mas aconteceram, entende? Eu sempre tive pessoas maravilhosas por perto que acreditavam que tudo isso seria possível e que tem muita coisa boa ainda por vir. Agora, algo realmente sério, minha origem é de classe baixa, então sei lá… Quando criança eu queria conhecer o zoológico, ou ir ao cinema, mas na época não dava. Ver um musical, peça de teatro ou um concerto era algo fora da nossa realidade financeira, então demorei muito tempo para entender essa coisa de artes e afins. Quando eu me vi indo viajar para uma outra cidade, para levar música para outras pessoas, eu não tive dúvidas de que era aquilo que eu queria para minha vida. E ir para outro país?! Nossa! Esse sonho estava longe demais, e quando aconteceu eu fiquei: “Caramba! Sair do Brasil levando música à outras culturas e gostos é um desafio e tanto, mas está acontecendo, então, a melhor coisa a se fazer é tirar todo o proveito. Sobre os prêmio de concursos são coisas das quais eu fico orgulhosa porque quando eu participo dessas competições não é para ganhar e sim por estar lá conhecendo outras pessoas, levando e trazendo conhecimento. E a questão da idade, nós hoje em dia temos esse âmago por conquistar coisas muitos jovens e sermos bem realizados profissionalmente, mas isso jamais foi uma questão para mim; eu penso que se pensarmos na reprodução do ser humano, foi um caminho e tanto de difícil para chegar até aqui só pelo fato de ter conseguido ser um espermatozoide que conseguiu fecundar com o óvulo, e segurar uma gestação que quase deu ruim, e então chegar nesse mundo, se alfabetizar, se descobrir como indivíduo, ter várias reflexões e tentar entender todas as histórias dos povos e épocas, que sabemos mais ou menos por cima e outras que estão por surgir. É um monte de informação, essa que você passa a vida tentando reter, então, independentemente de tudo, o lance parar e observar o que se passou; tem história para uns 100 anos em 20 rsrs. Bom, finalizando, eu sou grata por tudo o que acontece, desde coisas ruins e boas. Tudo é aprendizado, e a música me ajudou e muito nessa percepção e conquistas.

14. Revista do Choro: Com relação ao choro… recentemente assisti um vídeo onde você interpretava a música Jorge do Fusa, de Garoto, Aníbal Augusto Sardinha, um dos maiores violonistas que o mundo já conheceu. Jorge do Fusa, embora não seja um choro integra o repertório de um grande compositor de músicas deste gênero também, que foi Garoto. O que você traz de influência do Choro no seu trabalho?

Gabriele Leite: Bom, desde a primeira vez que ouvi choro eu fiquei encantada com tanta coisa que acontece em uma escuta: harmonia, linha da baixaria, os instrumentos, os timbres, o ritmo, e mesmo sem ter a experiência de saber os acordes, ou síncopas eu busco ir atrás de conhecer os trabalhos. E, nada melhor do que ir a uma roda de choro para entender algo sobre a linguagem, e nas devidas proporções trazer alguns recursos para o violão e fazer umas misturebas.

15. Revista do Choro: Quem apresentou o choro a você?

Gabriele Leite: A primeira pessoa foi a Josiane Gonçalves, que inclusive toca violão sete cordas.

16. Revista do Choro: Como é sua relação com o choro?

Gabriele Leite: É belíssima! Eu amo choro! Acredito sempre que seja uma história que ficou registrada e está sendo contada. Gosto muito de escutar as várias formações porque tenho a visão que mais do que nunca o choro pode ser um espaço de compartilhamento independente de qualquer classe social, racial e por aí vai. Esperamos que um dia cheguemos a essa compreensão. E o lance de tocar, eu ainda tenho algumas limitações de linguagem, mas às vezes me arrisco a participar de uma roda de choro.

17. Revista do Choro: Você tem vontade de criar algum projeto com choro paralelo aos seus projetos de música de câmara?

Gabriele Leite: Sim, um projeto para meninas do choro, mas está na cabeça por enquanto. Mas o objetivo inicial é ter um encontro de mulheres musicista dispostas a conhecer mais sobre a prática do choro. Mas têm alguns outros projetos, como para pessoas mais velhas, e também e não menos importantes para as comunidades carentes, que muitas vezes não têm oportunidade de conhecer este gênero de perto.

18. Revista do Choro: Você já gravou algum disco ou fez alguma participação em algum CD? Conte pra gente sua experiência no estúdio.

Gabriele Leite: De disco tem umas boas novas que estarão chegando com o Quarteto Abayomi, no segundo semestre de 2020. Enquanto solo, espero em breve ir para o estúdio gravar. Tenho algumas experiências bem legais com estúdio nesses últimos anos e dois vídeos gravados pelo curso de produção fonográfica da FATEC, Tatuí, e um duo gravado aqui em São Paulo, em 2018, que foi algo bem produzido.

19. Revista do Choro: Para você quem é na atualidade uma referência para qualquer estudante de violão do mundo?

Gabriele Leite: Temos algumas boas referências no mundo, ainda mais hoje, que é possível conhecer de maneira geral todo mundo sem sair de casa. Mas tem um que eu tive o prazer de conhecer no ano passado pessoalmente e esse alguém é ninguém menos que David Russell. Pensa num cara que é fantástico em todos os sentidos, muito atento, quer passar tudo o que acha pertinente ao aluno na masterclass, é uma junção de muitas boas coisas. Nem tem o que dizer!

20. Revista do Choro: Quais sugestões você daria a um(a) jovem que pretende estudar violão hoje no Brasil?

Gabriele Leite: Sempre procurar boas orientações, de bons profissionais da música, ter um olhar atento a tudo que possa ajudar no desenvolvimento como musicista. Ir atrás do aprendizado é o ponto crucial, mas tem um outro saber que é o mais importante de tudo: ser um bom ouvinte tanto na música como na maneira de agir com as pessoas. Hoje em dia os jovens têm tudo em um curto alcance, não à toa vemos cada dia mais pessoas que conseguem chegar a determinados resultados cedo, mas o que realmente importa e nunca vai mudar é o interesse, disciplina. Se não houver isso fica claro que as coisas serão duas; às vezes, mais difíceis do que já são.

21. Revista do Choro: Quais são seus projetos para 2020, e seus planos para o futuro enquanto instrumentista e pesquisadora de violão?

Gabriele Leite: Meus projetos para 2020 são muitos, além participar de alguns concursos e festivais, e ministrar algumas aulas. Este ano será de preparação para um mestrado fora do Brasil, ainda sem local específico, mas quero ampliar os contatos no exterior, continuar fazendo festivais e concursos, e até novas parcerias de trabalho. No âmbito da pesquisa, gostaria de explorar alguns repertórios com os quais eu não tive muita prática, principalmente de música contemporânea, com ensemble e música de câmara.