Revista do Choro de portas abertas em Lumiar


Público que for à redação poderá assistir a pequenos espetáculos musicais, consultar o acervo da revista e degustar as cervejas artesanais de Friburgo armonizadas aos quitutes feitos no fogão à lenha da cozinha rural da casa

A sede da Revista do Choro [e-ditora] – única publicação dedicada ao gênero produzida no mundo -, fica em Lumiar, um charmoso distrito na região serrana de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.

No último sábado, a casa onde funciona a redação, à beira do riacho São Domingos, foi aberta para visitação pública com um grande ritual que exaltou o choro, os chorões e a natureza. Só para se ter ideia, a festa terminou com uma roda no quintal da casa, com todos os presentes de mãos dadas elevando o pensamento com um mesmo propósito: o de agradecer o fenômeno da vida.  

Prata da casa valorizada

A compositora, cantora e instrumentista Lúcia Garcia, que já desenvolve um trabalho musical há mais de duas décadas na região, tendo gravado com vários músicos de Lumiar, São Pedro da Serra, Macaé de Cima… inaugurou o palco intimista da redação da Revista do Choro nessa noite. Embora seu repertório não esteja voltado especificamente para o choro, Lúcia tem um trabalho fantástico com composições autorais, e misturou suas músicas com outras já consagradas envolvendo todo o público, que cantou o tempo todo junto com ela e pediu mais!

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Exposição ‘História do Choro’

Na ocasião foi aberta também a exposição ‘História do Choro’, organizada pela idealizadora e editora da Revista do Choro, a jornalista Leonor Bianchi. Verbetes e fotos de precursores, como Anacleto de Medeiros, Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu, Catulo da Paixão Cearense, Pixinguinha, Luperce Miranda, Jacob do Bandolim, Villa-Lobos, Altamiro Carrilho, Raphael Rabello, entre outros ícones do choro narram a ‘evolução’ do gênero, desde de 1870 – data tida como marco fundador do choro em função do surgimento dos primeiros regionais -, aos dias atuais.

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Cervejas artesanais de Friburgo e cozinha rural

Quem for à redação da Revista do Choro poderá ainda provar as deliciosas cervejas artesanais produzidas em Nova Friburgo, hoje um importante polo produtor de cervejas, e beliscar as delícias feitas no fogão à lenha do Empório Mata Atlântica, que funciona na casa.

A proposta de ter um pequeno bistrô rural na redação vem de um único motivo, explica a editora da revista:

“Chorão só toca onde tem comida farta e boa. Comida e bebida! Não havia como pensar em abrir um espaço para receber os chorões para rodas de choro sem uma cozinha à altura dessa exigência básica para esses músicos virtuosos. Como o Empório Mata Atlântica já funcionava na Casa Cultural Mata Atlântica, resolvi reativar a ideia aqui nesta nova base da redação”, conta Bianchi.

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Casa Cultural Mata Atlântica e Revista do Choro no Mapa de Cultura do Rio de Janeiro

Em 2012, a jornalista Leonor Bianchi foi inserida num grande mapeamento que estava sendo feito pela Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro; o Mapa de Cultura. O Mapa tinha como objetivo identificar quem eram os agentes culturais que atuavam de forma independente, ou não, no estado, e mostrar esses agentes e seus projetos para o mundo de forma a fomentar os mesmos. Com uma dezena de atuações no setor cultural e nessa época já produzindo há alguns anos a Mostra Cinema Popular Brasileiro, que criou e fez durante uma década (de 2004 a 2013) em Lumiar, Leonor entrou para o Mapa.

Nesse ano, morando em São Pedro da Serra, ela deu o nome de Casa Cultural Mata Altântica para a casa onde morava, trabalhava e abrigava o acervo de filmes da referente mostra de cinema, entre outras que produziu. O nome Casa Cultural Mata Atlântica ficou registrado no Mapa de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Na época, a jornalista já pensava em receber rodas de choro no espaço e por isso criou um pequeno empório na casa ao qual denominou Empório Mata Atlântica.

Casa de Caboclo

A nova casa onde está funcionando a redação da Revista do Choro é quase centenária. No terreirão onde fora erguida, há mais de 75 anos, já havia uma outra casinha muito simples de pau a pique que foi derrubada para dar lugar a atual. O sítio, pertencente à família Govea, fundadora da região, tem mais de 180 anos e está localizado num pequeno vilarejo chamado Córrego São Domingos, popularmente conhecido pelos moradores locais como ‘Buraco do Amargoso’. O nome vem de uma antiga estória contada pelos mais idosos que ali nasceram e vivem até hoje. Pela pequena vereda que hoje é conhecida como estrada do Amargoso passavam muitas tropas de burros carregando produtos agrícolas e mercadorias as mais diversas. Os moradores da região recebiam os tropeiros em suas estalagens para pequenos pousos e nessas passagens, serviam-lhes café sem açúcar, pois ali não se cultivava cana de açúcar, como na baixada litorânea, em Quissamã e Campos dos Goytacases, por exemplo, nessa época maior produtor de cana do estado e um dos maiores do Brasil. Pelo fato de o café ser amargo e de o Córrego São Domingos estar num vale, os tropeiros começaram a chamar o lugar de ‘Buraco do Amargoso’.  

A casa ainda mantém suas características originais, embora seu antigo fogão à lenha tenha sido destruído há um ano quando de uma obra que os donos fizeram no imóvel. Pensando em manter a originalidade da arquitetura, Leonor construiu um novo fogão à lenha na casa, o qual também foi inaugurado, se assim podemos dizer, na noite de sábado. A jornalista cozinhou um caldinho de feijão bem puxado no alho e serviu aos amigos presentes, que também apreciaram uma cachacinha maravilhosa da região mineira de Salinas. O pessoal saiu satisfeito e agradecido…

Origem do choro

Como ocorre com outros gêneros musicais, existem inúmeras discussões entre os pesquisadores sobre a gênese da palavra “choro”. Dentre as versões conhecidas, uma diz respeito que o termo surgiu de uma fusão entre “choro”, do verbo chorar, e “chorus”, que em latim significa “coro”. Para Lúcio Rangel e José Ramos Tinhorão, a expressão choro pode derivar da maneira chorosa de se tocar as músicas estrangeiras no final do século XIX e os que a apreciavam passaram a chamá-la de música de fazer chorar. Por extensão, próprio conjunto de choro passou a ser denominado pelo termo, por exemplo, “Choro do Calado”. Já Ari Vasconcelos vê a palavra choro como uma corruptela de choromeleiros, corporações de músicos que tiveram atuação importante no período colonial brasileiro. Os choromeleiros não executavam apenas a charamela, mas outros instrumentos de sopro. O termo passou a designar, popularmente qualquer conjunto instrumental. Câmara Cascudo arrisca que o termo pode também derivar de “xolo”, um tipo de baile que reunia os escravos das fazendas, expressão que, por confusão com a parônima portuguesa, passou a ser conhecida como “xoro” e finalmente, na cidade, a expressão começou a ser grafada com “ch”.

No princípio, a palavra designava o conjunto musical e as festas onde esses conjuntos se apresentavam, mas já na década de 1910 se usava o termo para denominar um gênero musical consolidado. Atualmente, o termo “choro” tanto pode ser usado nessa acepção como para nomear um repertório de músicas que inclui vários ritmos. A despeito de algumas opiniões depreciativas sobre a palavra “chorinho”, essa também se popularizou como referência ao gênero, designando um tipo de choro em duas partes, ligeiro, brejeiro, muito comunicativo.

Os primeiros conjuntos de choro surgiram por volta da década de 1870, nascidos nas biroscas do bairro Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios cariocas. O flautista e compositor Joaquim Antônio da Silva Calado, os pianistas Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga, e o maestro Anacleto de Medeiros compuseram quadrilhas, polcas, tangos, maxixes, xotes e marchas, estabelecendo os pilares do choro e da música popular carioca da virada do século XIX para o século XX, que com a difusão de bandas de música e do rádio foi ganhando todo o território nacional. Herdeiro de toda essa tradição musical, Pixinguinha consolidou o choro como gênero musical, levando o virtuosismo na flauta e aperfeiçoando a linguagem do contraponto com seu saxofone e organizou inúmeros grupos musicais, tornando-se o maior compositor de choro.

Tem como origens estilísticas o lundu, ritmo de inspiração africana à base de percussão, com gêneros europeus. A composição instrumental dos primeiros grupos de choro era baseada na trinca flauta, violão e cavaquinho – a esse núcleo inicial do choro também se chamava pau e corda, por serem de ébano as flautas usadas, mas com o desenvolvimento do gênero, outros instrumentos de corda e sopro foram incorporados.

Visitas à redação

A redação da Revista do Choro está aberta à visitação de segunda à segunda, das 14h às 20h de 2ª a 5ª; sextas, sábados e domingos a casa abre das 10h às 23h. Saindo do laguinho de Lumiar, o visitante anda cinco minutos de carro até a Estada do Córrego São Domingos, mais conhecida como Estrada do Amargoso, em Boa Esperança de Baixo e rapidamente já está na redação. Uma boa referência é que a Revista do Choro fica na estrada que leva para o hotel Parador Lumiar.

Acesse a Revista do Choro: www.revistadochoro.com