Sara Müller: uma flautista brasileira entre os fundadores do Sydney Choro Club


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Ouça o podcast com a flautista brasileira e uma das fundadoras do Sydney Choro Club, Sara Müller

Leonor Bianchi

Ela começou a estudar flauta na infância incentivada pelo pai, mas o foco era a música erudita; o choro só viria na vida adulta, em São Paulo, onde conheceu Zé Barbeiro, Valter Guerra, Adauto Alves e tantos outros chorões, que a introduziram nesse universo maravilhoso do Choro.

Familiarizada e apaixonada pelo gênero, Sara foi morar em Sydney, Austrália, em 2014, e assim que chegou lá buscou parceiros para interfacear musicalmente, mas não encontrou muita gente, encontrou Douglas Aguiar, violonista brasileiro, chorão virtuoso com quem passou a fazer um duo de forró e também de choro. Ambos são os fundadores do Sydney Choro Club, há dois anos.

Neste podcast a flautista brasileira Sara Muller conta como chegou a Austrália levando o choro na bagagem.

Leia o depoimento de Sara sobre como ela conheceu a música e começou a tocar flauta e ouça seu Podcast

“Tudo começou com meus ancestrais por parte de pai e de mãe…

Minha avó materna sempre quis tocar música, no caso, piano, mas o pai dela não deixava, pois além de não ter condições financeiras e vir de uma família bastante humilde, minha avó tinha que trabalhar e cuidar da casa.  Mas depois que ficou viúva e os nove filhos cresceram, ela ganhou uma gaita de boca de um amigo e começou a tocar sozinha de forma e autodidata, e nunca mais parou. Hoje, tem 94 anos e ainda toca. Ano retrasado, ela gravou um CD, e todos da família que tinham experiência musica tocaram no disco. Minha prima, que toca flauta doce, meu tio, tocando violão… meu irmão participou como o fotografo, meu primo fez o layout do CD e assim por diante. Inclusive, eu aqui da Austrália pude participar deste projeto. O Douglas Aguiar, violonista que fundou o Sydney Choro Club comigo me ajudou com as gravações, em sua casa. Enviei as gravações para meus primos, que fizeram a edição. Foi um momento bem emocionante e todos da família se envolveram.

Minha avó conta a historia de como começou a tocar gaita neste vídeo

Uma das músicas do CD da minha avó pode ser vista aqui

Agora, falando do meu avô paterno: ele, também de família humilde e com uma filha excepcional para cuidar, tinha que trabalhar dobrado. Durante o dia era carpinteiro e à noite tocava bandonhão nos bailes da cidade de Blumenau. Meu pai também queria tocar um instrumento, mas assim como minha avó, teve que trabalhar na roça desde cedo, inclusive, nem fez o primário, pois era considerado “burro” já que era canhoto e literalmente apanhava da professora, que o obrigava a escrever com a mão direita. Quando já adulto e depois de ter servido ao exército teve a oportunidade de trabalhar em uma fábrica na Alemanha. A Alemanha estava recrutando mão de obra e várias pessoas da minha cidade (Blumenau) tomaram isso como oportunidade de sair do Brasil e construir uma vida melhor. Foi aí, depois de cinco anos, guardando dinheiro e mandando dinheiro para a família construir uma casa, que ele voltou para Blumenau e construiu a própria casa com a ajuda da minha mãe. E só depois que eu nasci foi que ele pode iniciar e concluir o Primário, Secundário e a faculdade, quando passou em primeiro lugar.

Depois do meu pai já estar melhor financeiramente, ele quis dar aos filhos a educação que não teve quando criança e ‘meio que’ “obrigou” todos os filhos a tocarem na marra. Ele dizia: “enquanto comer comida do meu prato vai fazer o que eu mando, vai tocar, ir pra escola e estudar em casa”.

Quando eu tinha oito anos de idade e já sabia ler, ele tinha certeza que já era hora de me colocar em aulas particulares de flauta doce. Rebelde e sem entender, perguntei a ele por que eu tinha que tocar se ele inclusive não sabia tocar. Também argumentei que eu não queria tocar, mas cantar. Nunca me esqueço que ele disse que cantar todo mundo cantava e que eu teria que ir para a escola de música, que no caso era do meu tio, Arno Krepky, filho da minha avó materna. Aí respondi que só iria se ele fosse comigo. Comecei a fazer aula com a Miriam Quintani, que foi uma fofíssima. Lembro de um dia, eu chorando de tão difícil que era tocar algumas músicas de Bach e ela me consolando. Depois, ela me contou que também tinha chorado na aula dela com o professor dela pelo mesmo motivo. Enfim, ela tinha uma excelente didática.

Enfim, meu pai e eu íamos para a aula de flauta doce e pra mim, criança, aquilo era tipo uma brincadeira e muito fácil. Já o meu pai estava todo atrapalhado e lembro que ele ficava horas estudando em casa depois do trabalho para poder chegar na outra semana com alguma coisa para mostrar à professora. Lembro um dia em que eu estava rindo tanto vendo meu pai ensaiar por horas e não entendia como que ele não conseguia tocar, pois ele era o homem mais forte que já tinha conhecido, tipo machão, e não conseguia tocar uma flautinha? Naquele dia ele ficou muito bravo comigo e gritou para que eu parasse de rir da cara dele.

O final do ano estava se aproximando e começamos a ensaiar um dueto para a apresentação da escola de música. Era muito, mas muito difícil ensaiar com o meu pai, pois a vontade de rir era imensa. E aquilo que eu temia aconteceu. “O mau que eu temia me sobreveio”. No dia da apresentação, eu e meu pai subimos no palco, olhamos um para a cara do outro, eu comecei a rir, como sempre, meu pai também começou a rir. A plateia começou a rir. E nós não conseguimos parar de rir de jeito nenhum. Ficamos por mais 1 minuto no palco gargalhando e mostrando a goela, até que meu pai tomou a iniciativa e desceu do palco para nunca mais subir. E eu fiquei com o trauma de todo final do ano subir novamente e me aguentar para não rir. Esse foi o meu maior medo por anos.

O tempo passou, e nunca parei com a música. Ela sempre estava presente em minha vida, mesmo eu não querendo. Meu pai inventava serenatas para todos os amigos dele. Eu tinha que acordar cedo e tocar em muitas janelas da vida. Quantas foram as vezes que eu fiz serenata para minha mãe, minha avó, meus tios, tudo a mando de meu pai. “Enquanto comer comida do meu prato…”. Não me lembro também de me apresentar e não ter visto meu pai na plateia. Quando tocávamos, eu e meus irmãos, aquilo era a prioridade número um para ele. Ele nunca estava atrasado e estava sempre presente. Por anos a fio. Não elogiava, às vezes falava o que estava errado, e às vezes estava com os olhos lacrimejados.

Em casamentos eu tinha que levar minha flauta e tocar alguma coisa. No final a flauta doce já era um pedaço de mim que tinha que carregar por onde fosse. Acho que era uma projeção do meu pai, que gostaria de tocar e projetou em mim esse desejo. Só Freud explica!

Meus 11 anos chegaram e meu pai me induziu a escolher a flauta transversal, pois continuava estudando flauta e além disso era um instrumento fácil de carregar. Eu já estava grandinha para segurar uma flauta de metal. Também me falou… já pensou um dia você tocando Tico-Tico no Fubá? Ele me deu uma flauta que eu gostei bastante, Yamaha. Ela era de um metal escuro e tinha o nome de uma garota escrito nela, pois era uma flauta usada. Ele me deu só o bocal e disse que só me entregaria o resto da flauta quando eu conseguisse tirar som com o bocal. Coloquei na boca e tirei o som na hora. Ele me deu o corpo da flauta no mesmo dia e assim comecei a brincar um pouco com o novo presente.

Aí fui para o Conservatório de Música “Teatro Carlos Gomes”, de Blumenau. O professor vinha de Curitiba, pois não tinha nenhum flautista na cidade, e as aulas eram quinzenais. Não me esqueço das primeiras aulas e dos exercícios de notas longas – soooooooool, láaaaaaaaaaa, siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, dóoooooooooooooo. Nossa… quando chegava na segunda nota já sentava de tão tonta que eu estava. Não entendia como meu corpo não conseguia fazer o que estava escrito. Eu não tinha problema de leitura, e nem de digitação, mas meu pulmão ainda não estava preparado para tanto CO2. A diferença da flauta doce para a transversal foi brutal.

Não tinha problema de leitura, com exceção de 6/8. Nunca tinha tocado e não entrava na minha cabeça como 1 era 1 e meio. Chorei, esperneei, queria quebrar a flauta no meio e outras coisas mais.

A adolescência chegou, a rebeldia também. Não queria mais tocar flauta, nem ensaiar, nem nada. Odiava tudo. Achava que meu pai também me odiava, pois me obrigada a tocar todos os dias. Na verdade, eu achava que ele era um carrasco sem coração. Eu tinha que preencher uma planilha que ele colocava atrás da minha porta com a quantidade de horas que estudava por dia. E caso não estudasse as horas do dia, no outro eu tinha que estudar o dobro. Não tinha negociação com meu pai. Então comecei a fingir que estava estudando e fiz isso por um bom tempo, pois estava num momento “rebelde”. Eu ia para a aula e falava… estou aqui, mas não quero aprender. O professor ameaçava contar para o meu pai, aí não adiantava a enrolação. Coitados de todos os professores pelos quais eu passei; foram uns santos. Curt Shroeder, Gianpiero Pilatti, ambos de Curitiba. Chorava com a minha mãe, pedia para ela falar com meu pai, mas ela não se envolvia nesse assunto. Dizia que era problema meu e do meu pai e que conhecendo o marido que tinha, ele não aceitaria que eu parasse de estudar.

Aí o tempo foi passando e comecei a fazer as pazes de leve com a flauta. Adorava tocar na Orquestra Jovem do Teatro Carlos Gomes e para isso tinha que estar com as músicas e a técnica em dia. Passei anos tocando e tive muitas amizades na época de adolescente, em função da música, que foram especiais. Lembro-me do Leandro Gaertner tocando trompete enquanto eu tocava transversal. Depois de um tempo, ele resolveu fazer aulas de flauta transversal. E depois começou a tocar a segunda flauta, e aí a primeira flauta. Esse sim meu pai ficaria orgulhoso se fosse filho dele. Depois de anos a fio estudando na escola, a regente da Orquestra e diretora na época, Lolita Mello, me chamou para conversar e disse que não contrataria mais o professor de Curitiba e que o Leandro seria o novo professor da escola. Achei um absurdo. Bati o pé, me revoltei! Onde já se viu eu ter que fazer aulas com meu amigo? Ela disse que eu era a única aluna avançada e que não faria sentido chamar um professor de Curitiba apenas por minha causa e que era para eu tentar fazer aula com o Leandro e ver o que aconteceria.

Bem… até que não foi tão ruim assim. O Leandro tinha muito a ensinar, pois estava realmente indo muito além de tudo o que eu já presenciei, e ele merecia o posto de meu professor. Foi aí que ele trouxe alguns chorinhos mesmo não sendo muito comuns para mim e para a minha cidade, e aquele virou o nosso momento de fazer duetos e ouvir o resultado do contraponto. O Leandro trouxe bastante material; fizemos inclusive alguns trabalhos em eventos, com dueto de flauta.

Também tive experiência com o piano por sete anos e meio. Meu pai, do nada, comprou um piano que foi ofertado a preço de banana por alguém que estava precisando vender. E eu amava tocar. Na verdade, até mais do que a flauta, naquele momento da minha vida. Talvez por ser algo novo.

Eu também nunca esqueci do desejo de cantar, mas isso é uma outra história que vou pular neste exato momento, pois o foco é a flauta e o choro, mas por anos também estudei canto lírico.

Depois de 13 anos estudando flauta, tive que parar de tocar na Orquestra, e depois de fazer aula de flauta, pois a faculdade me tomou o tempo, além do trabalho. Não escolhi música, mas sim publicidade como carreira. Mas continuava tocando em eventos, na igreja, enterros, casamentos e claro, nas serenatas. Quantas vezes toquei “Quão grande és tu” já perdi da memória.

Um tempo depois apareceu a oportunidade de morar em SP, que também é outra história. Foi quando comecei a trabalhar com publicidade. Logo que cheguei em São Pauo comecei a tocar na igreja batista do Morumbi e também na orquestra da igreja, organizada pelo pastor Sydney Costa. Fizemos muitos trabalhos, gravamos DVD de peças de natal, e lá também conheci meu ex marido, que é um excelente músico e compositor. Eu o acompanhava pela vida à fora, todos os finais de semana, tocando com ele. Ele cantava, tocava violão e eu tocava flauta e vendia o CD dele. Mas essa é outra história e que não teve final feliz. Nos separamos e senti muita falta da música. Foi aí que apareceu o Adauto Alves em minha vida. Ele vinha há muito tempo insistindo para que eu o acompanhasse a uma roda de choro, até que um belo dia eu aceitei, e era a roda do Zé Barbeiro. Levei minha flauta, como ele pediu e como meu pai me pedia, para carregar onde fosse. Zé Barbeiro perguntou qual choro eu sabia tocar e eu não tinha conhecimento algum do repertório. Me senti um lixo, sabendo tocar flauta e música, mas não sendo capaz de tocar nenhum choro. A única música que deu pra tocar com eles foi “Carinhoso”. Voltei pra casa decidida que iria aprender a tocar choro. Pelo amor de Deus! Onde já se pode? Aí ficava em casa estudando o Método Taffanel de Flauta Transversal e 84 choros, livro clássico para todo estudante de flauta transversal. Sempre que levava este livro era xingada porque diziam que ele estava desatualizado e blá, blá, blá… Enfim, foi onde tudo começou. Uma página por vez. Na época, conheci a Celina Charlier quando fui para Nova York comprar uma flauta e o dono da loja me apresentou a Celina, que me ajudou a escolher a melhor flauta para o meu bico. De vez em quando ela vinha para o Brasil e era quando eu dava aquela repaginada e fazia umas aulas particulares e workshops.

Depois, quando já tinha um pouco mais do que Carinhoso no repertorio, aceitei o convite do Adauto de criar uma roda, e assim começamos a tocar no Escondidinho da Amada, na Vila Madalena, em são Paulo, às sextas-feiras, depois do trabalho. De publicitários éramos eu, o Adauto Alves, no cavaquinho, o Cleber Costa, no pandeiro e o Elvis Oliveira, que infelizmente não esta mais conosco e esta tocando choro com os anjos. Era um momento muito gostoso e de muito aprendizado para mim. Depois de um tempo o Valter Guerra começou a tocar conosco. Ele hoje estava fazendo um trabalho bacaníssimo na Espanha e Itália, representando o choro por onde vai. Um dia, na roda, do lado de fora, parou um homem. Ele ficou olhando e apreciando, do lado de fora mesmo. Depois resolveu entrar no restaurante. Era o Barão do Pandeiro. Chamou-me para tocar na sua roda, no Bar do Alemão, o que fiz algumas vezes. Ele me ajudou bastante compartilhando materiais bacaníssimas, pois é uma enciclopédia ambulante. O que tem de conhecimento de choro e quantas pessoas já passaram por ele é inimaginável!

Em 2014 mudei para a Austrália (outra história), e vim com a vontade de tocar choro e representar a cultura brasileira. Fui logo acolhida por grupo de samba, pagode e forró, mas o choro ainda era algo que estava me chamando e um sonho a ser realizado. Até que conheci o Douglas Aguiar, violonista e chorão de mão cheia, num evento de forró, em Sydney. No mesmo dia já me ofereci pra tocar triangulo; ele estava tocando sozinho. Acho que foi com a minha cara, pois me chamou para tocar na banda de forró dele, a ForAll Band. Comecei a tocar, mas brinquei com ele que só tocaria se ele tocasse choro comigo. Ele aceitou e começamos a ensaiar choro num parque chamado Harmony Park, tudo a ver com o choro. Era no intervalo de almoço do meu trabalho, ensaiávamos todas as semanas. O Douglas postou um vídeo de nosso ensaio e aí apareceu o Pedro querendo fazer choro também. O Pedro Licio chamou o Kadu Aguilera, e foi assim que a roda começou.”.