‘Avena de Castro, a Cítara e o Choro em Brasília’


Por Leonor Bianchi

Ano passado, pesquisando pautas para a Revista do Choro, deparei-me com o projeto ‘Sábado à tarde: Avena de Castro, a Cítara e o Choro em Brasília’. Nunca mais havia ouvido falar em Heitor Avena de Castro. E, logo após descobrir pelos jornais de Brasília que o projeto seria lançado no Clube do Choro de Brasília por aqueles dias, entrei em contato com sua coordenadora, a pesquisadora e musicista Beth Ernest Dias, já mencionada, a fim de entrevistá-la sobre o ousado intento. Uso este termo porque ela conseguiu produzir, com alto nível estético e conteudístico, um ‘kit’ com dois livros: um contando a história de Heitor Avena de Castro e do choro nos primeiros anos de Brasília; outro, um álbum de partituras (português – inglês) com 23 composições de Avena voltadas para seu repertório chorístico, sendo 13 destas inéditas), e ainda dois CDs: o CD 1, dirigido pelo saudoso cavaquinista Evandro Barcellos, que também toca cavaco no regional do projeto -, traz com 15 composições de Avena de Castro gravado com um regional criado especialmente para o projeto. Beth precisou criar o regional, ensaiar o repertório… Este CD tem ainda a participação especial do bandolinista Hamilton de Holanda. O segundo CD tem gravações originais de Avena de Castro remasterizadas. Das faixas 1 a 6 podemos ouvir um concerto de cítara feito por Avena de Castro, em Paquetá, em 26 de maio de 1960, na casa de Norival Medrado, gravado por Jacob do Bandolim! As faixas foram cedidas pelo Instituto Jacob do Bandolim (IJB) para o projeto Sábado à tarde. As demais faixas, 7, 8 e 9, trazem a formação original Regional Sinfônico de Brasília, gravada por Paulo Roberto You Uchoa, em sua residência no Setor Militar Urbano, em dezembro de 1969. Documentos raros e que não haviam até então sido disponibilizados nessa mídia (CD).

Eu estava diante de uma pauta-pérola e a Revista do Choro precisava conversar com a Beth. Era a pauta do momento, contudo, tempo é tempo, não é mesmo? E tudo ao seu tempo… Na época, atribulada com as atividades que envolviam o dia do lançamento do projeto, tão aguardado -, destacando aí também a organização e ‘harmonização’ de uma dezena de músicos e técnicos que atuaram na produção e gravação dos dois cds que integram o kit -, e na preparação dos últimos detalhes para o espetáculo que marcaria o lançamento do projeto no Clube do Choro de Brasília -, Beth não teve como atender a revista e nossa comunicação ficou ‘no ar’… Acabei publicando na Revista do Choro uma nota sem a fala da pessoa que havia realizado ‘tudo aquilo’, e tive que me contentar em apenas ‘dar a nota’, como se diz no jornalismo.

Avena de Castro… Pensei… Figura pouco conhecida no meio do choro até hoje… Preciso falar com a Beth! Vou aguardar. Ela vai responder o email da revista… Até que algum tempo depois ela respondeu meu primeiro email e em sua resposta começou a contar como chegou à pesquisa que gerou o projeto ‘Sábado à tarde’ em detalhes. Conversamos bastante. Ela enviou o kit com os livros e os CDs para a redação e ainda fez a gentileza e mandar um CD extra para sortearmos entre os leitores.

 

 

‘Avena de Castro, a Cítara e o Choro em Brasília’

Cítara nunca foi um instrumento muito conhecido no Brasil. Músico com nome de Heitor; lembramos logo de Villa-Lobos. Está distante de nossa memória musical o som da cítara, instrumento milenar que remonta à Grécia Clássica do século II a.C, e que, ao longo da história assumiria uma relação íntima com as tradições culturais dos alpes alemães e austríacos. Tão distante, que esquecemos da figura do citarista brasileiro que dedicou boa parte de sua obra ao CHORO, Heitor Avena de Castro; músico virtuoso nascido no Rio de Janeiro (7/ 12/ 1921 – 11/ 07/ 1981, Brasília), compositor pouco citado e tocado nas rodas de hoje, mas que teve, e tem um papel singular: o de ter introduzido de forma bastante original a cítara no ‘ambiente’, primeiro das rádio brasileiras, sobretudo, as do Rio de Janeiro, depois, no CHORO.

Fotos Tayla Lorrana (11)

Como diz Beth Ernest Dias, musicista e biógrafa de Heitor Avena de Castro com quem conversei para fazer esta matéria:

“Com suas interpretações plangentes e seus choros cheios de inventividade, Avena trouxe a cítara para o rico e variado universo da sonoridade brasileira de forma tão orgânica, que fazia acreditar que esse instrumento sempre tivesse pertencido ao mundo do choro e que ele sempre tivesse sido um chorão”.

Heitor Avena de Castro e sua cítara

Heitor Avena de Castro e sua cítara

Compositor de uma centena de choros feitos entre 1968 e 1981 (123 choros e duas marchas-rancho), muitos inéditos ainda, Avena de Castro gravou 24 discos em 78rpm, sendo quatro em duo com seu irmão Humberto Avena de Castro, também citarista, e 9 LPs dos quais destacam-se: Uma cítara e duas rosas, Uma cítara no samba e Avena de Castro relembra Jacob Bittencourt.

Nas décadas de 40 e 50, Avena de Castro viajou o Brasil fazendo concertos de cítara, tocou com todos os grandes cantores e instrumentistas dos anos de ouro do rádio no Brasil, trabalhou em regionais sendo contratado de emissoras imponentes no Rio de Janeiro e recebeu o respeito e a admiração de Jacob do Bandolim a quem dedicou o choro ‘Evocação de Jacob’, composto sob forte emoção após saber da morte do amigo.

Podemos afirmar que até hoje Heitor Avena de Castro segue sendo o único citarista dedicado ao CHORO de quem os pesquisadores da história da música popular brasileira têm referência.

Esta matéria abre uma série de artigos que não versarão apenas sobre a biografia de Avena de Castro, mas também e, sobretudo, sobre como a música, notadamente o CHORO, foi um importante elemento agregador para um grupo de moradores da então nova capital federal do Brasil: Brasília. Orbitados em torno da figura do citarista Heitor Avena de Castro, que chegara do Rio de Janeiro para tentar melhores dias em Brasília e aportava no ‘El Dourado’ com larga experiência na vida artística e musical adquirida em anos de atuação nas maiores rádios do Rio de Janeiro, esse grupo de músicos era o embrião do que mais tarde viria a ser o núcleo fundador do Clube do Choro de Brasília, do qual Avena de Castro seria posteriormente o primeiro presidente. Fazendo um adendo, Avena presidiu também o Conselho Regional da Ordem dos Músicos do Brasil.

A base da pesquisa que originou a série de artigos é o livro ‘Sábado à tarde: Avena de Castro, a Cítara e o Choro em Brasília’ e todo o material que integra o projeto organizado pela musicista e pesquisadora Beth Ernets Dias, desenvolvido desde 2012, finalizado ano passado.

Com toda generosidade, Beth abriu as portas de sua casa – forma de dizer -, para a Revista do Choro, e compartilhou a rica experiência de como ‘descobriu’ a forte presença de Avena de Castro no contexto da música nos primeiros anos da fundação de Brasília, e como o choro estava intimamente relacionado a este ‘movimento cultural’. Ela contou como foi o desenvolvimento do projeto em detalhes, a começar pelo encontro com Alexandre Pasche, na época (2012) estudante de violão da Escola de Música de Brasília, onde ela lecionava, filho do violonista Gionavi Pasche, falecido este ano, em maio, pessoa importantíssima no cenário do choro nos tempos de Avena de Castro, amigo de Avena, e que ajudou a construir a linha narrativa de toda a estória que você vai conhecer agora.

O livro

O livro que conta a história do choro em Brasília, a trajetória de Avena e a organização musical que se formou em torno dele tem acabamento com capa dura, miolo colorido impresso em papel couché brilho, fartamente ilustrado com fotos antigas e atuais. Beth o dividiu em quatro capítulos:

‘Música no meio da poeira’, artigo do jornalista brasiliense Severino Francisco, mostra o cenário onde Avena de Castro e os músicos do Sábado à tarde viveram. Uma cidade em construção, um canteiro de obras onde tudo estava por ser feito, em processo. Através de uma crônica, o autor relembra músicas que foram compostas na época da construção de Brasília, ora rejeitando ora exaltando sua construção e a ideia fantasiosa de que uma nova capital federal poderia ser sinônimo se progresso para o Brasil.

No capítulo seguinte; ‘Sábado à tarde; Heitor Avena de Castro e Cítara e Citaristas’, como o nome mesmo já diz, a autora nos conta a estória de como o grupo de chorões do ‘Sábado à tarde’ se organizou entre os anos de 1968 e 1974, no apartamento do jornalista e cavaquinista Raimundo de Brito. Aqui a autora nos leva para uma viagem no tempo em seu encontro com Giovani Pasche e Hugo Almeida, amigos de Avena de Castro, frequentadores do apartamento de Raimundo e integrantes do ‘Sábado à tarde’.

O capítulo seguinte é exclusivamente dedicado à biografia de Heitor Avena de Castro. Sua vida na infância, no bairro de Vila Isabel, subúrbio carioca, nos anos de 1920; a iniciação musical ao lado do irmão Humberto com o professor Carlos Tyll, um citarista vienense, amigo de Catulo da Paixão Cearense. A carreira profissional paralela à música como técnico de ciências contábeis na Casa da Moeda; seu encontro com o citarista luxemburguês Nikolaus Schaak, que ofereceu a Avena de Castro, por perceber sua habilidade e talento, ensinar-lhe a técnica Meine Method, criada por Richard Grünwald, um grande professor do instrumento na Europa; os anos de 1940 e o início da carreira de Avena como concertista e músico profissional; a chegada da cítara e do citarista ao ambiente do rádio, na década de 1950; suas turnês, sua atuação como artista de TV; a decadência da era do rádio no início dos anos de 1960, que culminou com a ida do citarista para Brasília, onde Avena encontrou-se definitivamente com o choro, passando a compor muitas peças voltadas especificamente para o gênero.

No quarto e último capítulo do livro, a pesquisadora dá cena ao instrumento de Avena de Castro: a cítara; sua origem na Grécia Clássica do século II a.C; a forte presença na cultura dos alpes austríacos e alemães e sua introdução na América do Sul e posteriormente no Brasil.

Ao final do livro, a autora dispôs ainda uma tabela com a relação de todas as composições do citarista e a discografia completa de Heitor Avena de Castro. Talvez a primeira catalogação de toda a sua obra. 

O álbum de partituras

Integra o kit do projeto um álbum bilíngue português – inglês com 23 partituras de composições – todas choros -, de Avena de Castro. Na apresentação do álbum ‘de partituras ‘Sábado à tarde. Choros de Avena de Castro – melodias e cifras’, Beth Ernest Dias diz:

“Os choros de Avena de Castro, ao mesmo tempo em que demandam mais do que um nível mediano de capacidade técnica, são muito atraentes pela beleza e singularidade das suas melodias. As diversidades das tonalidades e dos andamentos permite considerá-los ótimos para aulas de conjunto, veja-se “Dialogando” e “Chor’eco”. Além disso, a riqueza de detalhes dessas composições – escalas e arpejos, anacruses, cânones -. Favorecem o desenvolvimento das capacidades, imprescindíveis ao instrumentista, de decorar e improvisar.”.

Segundo Beth, foram comparados manuscritos originais, cópias de manuscritos e partes editadas.

“Graças ao zelo do próprio Avena com sua produção musical, o trabalho de revisão se constituiu basicamente em conferência de notas nas melodias, corrigindo-se, suprimindo-se ou acrescentando-se uma a outra que porventura tivesse escapado ao cuidadoso autor”, diz a pesquisadora.

Depoimento de Beth Ernest Dias sobre o projeto Sábado à tarde

A entrevista de Beth à Revista do Choro foi concedida sob forte comoção da musicista ao saber do falecimento de Giovani Pasche, pessoa que motivou sua pesquisa sobre Avena de Castro.

“Bom dia, Leonor. Vou gravar este áudio no calor de uma emoção grande que vou partilhar com você. Esses dias eu tenho pensado muito no Giovani Pasche, e hoje, ao acordar, recebi a informação do seu falecimento, ontem à noite, no Rio de Janeiro. E o pensamento que me vem é aquele: Por causa de um rio atravessou uma montanha. Então… por causa do Giovani Pasche é que eu fiz esse trabalho, ‘Sábado à tarde’. Então eu quero dedicar este depoimento a ele.

O Giovani era violonista amador. Atuava profissionalmente no Corpo de Bombeiros. E nessa condição ele veio para Brasília logo na inauguração da capital. Tocava um violão muito bom e era seresteiro também. Aqui em Brasília, atuava como músico, e foi apresentado ao Avena de Castro, de quem ele já era muito fã desde os tempos em que morava no Rio de Janeiro e ouvia suas músicas nas rádios Nacional, MEC… Então, para ele foi uma grande emoção conhecer e tocar com Avena.

Só que o Giovani foi embora de Brasília em 1969 para o Rio e ninguém mais lembrava dele, só as pessoas idosas. No entanto, a paixão dele por Avena de Castro continuava viva e ele, querendo falar sobre essa memória, contar isso para as pessoas conseguiu me localizar através da internet tocando com a Francisca Aquino, e por uma coincidência, seu filho, Alexandre, que então era aluno de violão da escola de música onde eu lecionava, me procurou, e aí começou minha saga neste projeto que é o ‘Sábado à tarde’.

Fui ao Rio e colhi um depoimento do Giovani Pasche ao longo de uma tarde inteira. Fui entrevistando várias pessoas e o trabalho foi tomando uma proporção muito grande a paixão e a devoção do Giovani ao Avena de Castro. Ele foi me indicando pessoas. O Doutor Velloso, o ‘neuro-bandolinista’ que acabou trazendo Jacob para Brasília… foi me contando como foram essas vindas de Jacob do Bandolim a Brasília, e várias estórias que eu registrei no livro. Realmente se não fosse o Giovani e seu filho Alexandre ficar atrás de mim com recortes de jornais que nem nos arquivos do Correio Brasiliense existem mais em função de um incêndio que o jornal sofreu, eu não teria feito esse trabalho sobre Avena de Castro.

Meu intuito com esse trabalho foi tentar melhorar um pouco a pergunta de ‘como foi que o choro se tornou referência em Brasília e como era o cenário da música e da criação do Clube Choro antes disso, história esta que envolve minha própria família, uma vez que foi na casa da flautista Odette Ernest Dias, que fora assinada a ata de criação do Clube do Choro de Brasília.

No entanto, esse mesmo Clube do Choro tem uma história pregressa, pois sua criação parte de uma iniciativa do clarinetista Celso Cruz, clarinetista que também chegou a conhecer e a tocar com Giovani Pasche, embora fosse mais jovem que ele. O Celso retomou as reuniões que aconteciam na casa do jornalista Raimundo de Brito. Foram nessas reuniões na casa do Raimundo se reuniam muitos músicos, o Avena de Castro e que Jacob ia para tocar quando esteve em Brasília. Ele chamada esse regional de ‘Época de Prata’, fazendo alusão ao época de Ouro. Quem me contou isso foi o Doutor Velloso, que foi um grande e íntimo amigo de Jacob do Bandolim nos seus últimos anos de vida, e o próprio Gionavi.

Para quem não sabe, Jacob do Bandolim gravou sua última música em estúdio aqui em Brasília. Na sequência, o Raimundo de Brito faleceu, as reuniões foram interrompidas e o Celso Cruz, motivado por um desejo pessoal de tocar choro, reuniu, essas e outras pessoas, em 1976, pessoas em seu apartamento. Depois, essas reuniões passaram para casa da minha mãe, Odette Ernest Dias. E com a ideia do Celso de querer fazer um Clube do Choro e em 1977 o Clube passou a existir formalmente, com a formação de uma ata, e é essa entidade jurídica do Clube que atua até hoje.

O meu trabalho foi, então, foi jogar luz sobre essa história, falar de um período que ainda permanece obscuro, tomando depoimentos de pessoas que estiveram envolvidas, mas que ainda não tinham tido a oportunidade de falar sobre essa estória.

Foi muito incrível fazer essa pesquisa toda porque ao mesmo tempo em que eu consegui fazer o perfil desses músicos que tomaram parte nesses encontros pioneiros, suas estórias pessoais, suas estórias com relação à música, o trabalho me abriu um mundo novo de informações que eu não tinha, principalmente sobre Heitor Avena de Castro, o citarista que todos conhecem como o compositor do choro ‘Evocação de Jacob’.

A vida de Avena de Castro foi riquíssima. Pesquisei sobre sua biografia em diversas fontes, inclusive em acervos particulares de sua família, Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional… Colhi fotos, recortes de jornais e fui traçando a vida dele. Vi que a razão d’ele ser tão admirado e conceituado aqui em Brasília por pessoas que não sabiam de sua vida de solista de grande sucesso no Rio de Janeiro, tinha uma razão. Ela era fundamentada na capacidade do Avena de liderar esses músicos em torno da vontade de tocar choro com ‘uma certa pomba’ – digamos assim -, que seria uma vontade de tocar bem o choro.

O Avena, que já era, desde os tempos do Rio de Janeiro, amigo de Jacob do Bandolim, era irmanado com o bandolinista neste sentido de que o choro era uma grande música, não era uma música qualquer. 

Diante da riqueza a minha frente, comecei a catalogar as composições de Avena de Castro e de outros compositores, como do próprio Giovani Pasche, Amilton Costa, Cincinato (do bandolim), Pernambuco do Pandeiro. Todos esses músicos passaram pela casa do Raimundo de Brito. Alguns com mais frequência, outros com menos, mas todos passaram por lá. A esse grupo se juntou os professores da escola de música; o Raimundo Nonato de Souza, que depois foi spalla da Sinfônica de Campinas, grande violinista; o Hélio Magalhães, violoncelista, e violistas também, como o Gilberto de Castro, o Jurandir. Diante dessa maravilha que era tocar choro, eles se uniram ao Avena e ao regional de base e formaram o que chamaram de ‘Regional Sinfônico de Brasília’. Há gravações! Fui reunindo todo esse material e vi que não havia como fazer um trabalho completo. Foi aberto aqui em Brasília um edital para pesquisas em música. Apresentamos o projeto, que incluía escrever um livro com essas estórias, editar músicas – partituras -, e gravar um CD, que eu desdobrei numa gravação em dois CDs.

Gravamos, aqui em Brasília, um CD com 15 composições de Avena de Castro, que incontestavelmente era ‘aquele de cuja obra ainda não havia sido gravada em toda sua totalidade. Sem desmerecer de nenhum outro, porque o Hamilton Costa também é um grande compositor, mas ele já tinha um cd gravado com a obra dele, então eu me ative as composições do Avena por achar que precisa fazer esse registro. Montamos um regional e na falta da cítara, pois até hoje não existe alguém que toque cítara de concerto, idealizei um regional com a presença de piano e convidei a Francisca Aquino, que é uma grande pianista e arranjadora e dada a intimidade com que ela trata os gêneros e já tocamos juntas muitos anos e minha base fixou com piano, vilões de 6 e 7 cordas, cavaco e pandeiro e acresci os solistas. Fizemos com flauta, bandolim, piano, cavaquinho e um solo de vibrafone. Quem fez a direção do estúdio foi a Evandro Barcellos, que além de tocar no cd, que infelizmente faleceu antes de finalizar o trabalho. No segundo cd masterizamos gravações antigas do Avena de Castro com a seguinte justificativa: existe uma gravação que faz parte do arquivo de Jacob do Bandolim que está no Museu da Imagem do Som do Rio, gravação esta feita pelo próprio Jacob do Bandolim. Jacob, muito chateado porque o Avena vinha embora para Brasília, resolveu fazer uma gravação em Paquetá, durante a madrugada, durante o silêncio total, e gravou um formidável e incrível recital de citara solo com Avena tocando seus grandes carros-chefes, dentre os quais três faixas que selecionei: o Minueto em sol maior, de Johann Sebastian Bach, Valsa op. 69 n 2, Eponina, de Ernesto Nazareth, e duas composições do próprio Avena que não estão gravadas em nenhum lugar: ‘Devaneios n 1’ e ‘Prece’. Essas são as gravações do Avena tocando cítara solo. E depois fizemos uma gravação feita por uma pessoa muito especial, o Paulo Roberto Yog Uchoa, que conseguiu gravar o Regional Sinfônico de Brasília! Ele gravou ‘Evocação de Jacob’, ‘Valsa para uma rosa’, e ‘Noites cariocas’, do Jacob do Bandolim.

Gravamos com o André Artesi de forma superincrível, e as matesterizações também ficaram muito boas. Resultou num belo documento. Foi um trabalho de muito empenho. Todos se dedicaram demais. Todos trabalharam por pouquíssimo dinheiro, de fato dedicados ao resgate dessa memória. Todos estavam de fato envolvidos com o projeto.”.

Curiosidades

Perguntei ainda a Beth algumas coisas que ‘passam pelo’ âmbito da curiosidade, mas também podem sanar dúvidas do público, como a questão da morte de Avena de Castro, que contrariamente ao que todos imaginam, não foi suicídio. 

Revista do Choro: Algum dos depoentes que você conversou para escrever o livro sobre Avena de Castro e o choro em Brasília já faleceu, além do Giovani Pasche?

Beth Ernest Dias: Infelizmente faleceram algumas pessoas, a saber: o bandolinista Coqueiro, já bastante idoso, o cavaquinista Evandro Barcellos, que foi o diretor de estúdio do CD, precoce perda, o Maestro Levino de Alcântara, fundador da Escola de Música de Brasília, a Dona Lezir, viúva do Avena e a Magda França Lopes, filha da pianista Neuza França. E, por último faleceu trágica e precocemente a Liane Uchoa, que é personagem (página 91).

Revista do Choro: Saberia dizer se a citarista filha de alemães, Inge Bolman Brums, citada no seu livro, tocava ou gravou choros?

Beth Ernest Dias: Não, ela só gravou um LP: Sossego da Alma, era amadora e não tocava choro.

Revista do Choro: Existe outro citarista na história do choro? Quem?

Beth Ernest Dias: Não existiu até agora nenhum outro. Há uma citarista alemã, Gertrud Huber, com quem tenho contato, que ficou conhecendo choro. Ela veio a Brasília em 2015 e tocamos juntas duas peças do Avena. Mas por enquanto é só.

Revista do Choro: Como Avena faleceu?

Beth Ernest Dias: Ele sofria de enfisema pulmonar num estágio muito avançado, pois era fumante inveterado. Estava hospitalizado e num ataque de falta de ar, ele se jogou pela janela do quarto do hospital. Não foi suicídio como muitos pensam. Pesquisei muito sobre isso.

Revista do Choro: Com quem ficou e com quem está a cítara de Avena de Castro?

Beth Ernest Dias: Com a família

Revista do Choro: E o acervo de Avena, está com sua família? Que família; netos, sobrinhos? Quem? Só pra citar, se eu for citar isso em algum momento).

Beth Ernest Dias: A guardiã é a filha, Heizir de Castro, professora de biologia na USP.

Revista do Choro: Há interesse da família de Avena de que esse material dele vá para algum centro cultural onde possa ser visto e conhecido por um maior número de pessoas e assim, difundir a obra de Avena de Castro?

Beth Ernest Dias: Creio que haja interesse, mas até agora nenhum centro desse tipo teve iniciativa.

Revista do Choro: No álbum de partituras, no texto de abertura, é dito que Avena compôs uma centena de choros, entre 1968 e 1981. Você saberia dizer o número exato?

Beth Ernest Dias: O número exato não sei porque algumas dessas composições estão espalhadas, mas cataloguei tudo a que tive acesso, 123 choros e duas marchas-rancho 

Revista do Choro: Quem é Severino Francisco, que escreve um dos textos do livro?

Beth Ernest Dias: Ele é jornalista aqui em Brasília com vasta experiência na cobertura da cena cultural, escreveu um livro sobre 50 anos de música em Brasília –  “DA POEIRA À ELETRICIDADE”

Revista do Choro: Gostaria de comentar sobre os croquis que ilustram o livro?

Beth Ernest Dias: Os que ilustram a abertura dos capítulos são criação de Renata Fontenelle, designer gráfica de todo o projeto ‘Sábado à tarde’. Eu adoro esses croquis! Os do Lúcio Costa são famosos e maravilhosos! 

Uma das fotos que ilustra o livro ‘Sábado à tarde’ mostra vários chorões que foram do Rio de Janeiro especialmente para Brasília para tocar choro: Jonas, Carlinhos Leite, Dino 7 Cordas, Belenzinho, Simpatia (agachado), e Giovani Pasche. O registro foi feito em 1967. Acervo de Arnoldo Velloso.

Foto da cítara: Tayla Lorrana

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Author: imprensabr