TIA CIATA: QUAL FOI O ROSTO DA MATRIARCA DO CHORO E DO SAMBA, QUE AJUDOU A CONSTRUIR A IDENTIDADE CULTURAL DO RIO DE JANEIRO?


Por Leonor Bianchi

Há personagens que fazem parte da história de um país mesmo quando seus rostos permanecem desconhecidos. É o caso de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, uma das figuras fundamentais para compreender a formação do samba, a cultura negra urbana e a própria construção da identidade cultural do Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX.

Paradoxalmente, embora Tia Ciata seja uma personagem amplamente conhecida pela história do samba, ainda não existe uma fotografia cuja autenticidade seja reconhecida de forma incontestável como sendo dela. Ao longo dos anos, diferentes imagens passaram a ser atribuídas à matriarca, algumas reproduzidas em livros, exposições e publicações sobre o samba. Pesquisas posteriores, entretanto, demonstraram que pelo menos algumas das fotografias tradicionalmente identificadas como sendo de Tia Ciata pertencem, na realidade, a outras mulheres.

A ausência de um rosto definitivo, porém, não diminui a dimensão histórica de sua trajetória. Ao contrário: revela uma das muitas lacunas existentes na documentação sobre as mulheres negras que participaram ativamente da construção cultural do Brasil.

Uma mulher entre dois séculos

Hilária Batista de Almeida nasceu na Bahia, em 1854. Em 1876, mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade onde construiria uma trajetória profundamente ligada à religiosidade afro-brasileira, à música popular, à culinária e às redes de sociabilidade da população negra.

Sua história também está diretamente relacionada à chamada Pequena África, região da cidade que se tornou, no período posterior à abolição, um importante território de resistência e reconstrução da vida comunitária negra.

Tia Ciata, entretanto, nunca rompeu completamente os vínculos com a Bahia. Ela transitava entre os dois estados, mantendo relações religiosas e comerciais. Essa circulação entre Bahia e Rio de Janeiro ajudou a estabelecer uma ponte cultural entre diferentes comunidades negras e tradições religiosas.

No Rio, sua atuação esteve ligada ao terreiro de João Alabá, importante liderança religiosa. Tia Ciata ocupava a posição de iaquequerê, a chamada mãe pequena da casa, uma espécie de braço direito da liderança do terreiro.

Essa posição ajuda a compreender que sua importância não estava restrita à música. Ela fazia parte de uma estrutura comunitária na qual religião, família, alimentação, festas, trabalho e música estavam profundamente interligados.

A mediadora entre o terreiro e a cidade

O historiador e pesquisador Luiz Antonio Simas define Tia Ciata como uma espécie de “intelectual orgânica de fronteira”: uma mulher capaz de transitar por diferentes universos sociais e culturais.

Ela estava entre o candomblé e os espaços de poder; entre o carnaval de rua e os salões frequentados por autoridades; entre a culinária e a música; entre as festas religiosas e as manifestações populares.

Essa capacidade de estabelecer relações foi fundamental em uma sociedade marcada pelo racismo e pelas consequências profundas da escravidão.

A abolição da escravidão, em 1888, não significou a incorporação imediata da população negra à cidadania brasileira. Milhares de pessoas foram lançadas a uma sociedade que não lhes garantia direitos, moradia, trabalho ou proteção social.

Nesse cenário, as comunidades negras precisaram construir suas próprias redes de solidariedade.

Tia Ciata participou ativamente desse processo.

Sua casa tornou-se um espaço de acolhimento, encontro, proteção e criação cultural. Ali circulavam religiosos, músicos, compositores, jornalistas, intelectuais, trabalhadores e autoridades. O espaço doméstico adquiria, assim, uma dimensão pública.

O quintal de Tia Ciata tornou-se um dos lugares simbólicos da formação do samba carioca.

O quintal como território de resistência

A casa de Tia Ciata possuía uma organização espacial típica das residências daquele período. Os terrenos eram estreitos e compridos, fazendo com que os espaços mais afastados da rua ficassem relativamente protegidos dos olhares externos.

 

Essa característica arquitetônica acabou favorecendo a existência de diferentes atividades dentro de um mesmo território.

Na frente, encontrava-se a parte mais próxima da vida cotidiana e da circulação das pessoas. Mais ao fundo, estavam os espaços destinados às manifestações religiosas e às rodas de samba.

O quintal era, portanto, muito mais do que uma área da residência.

Era um território de sociabilidade.

Ali podiam coexistir o sagrado e o profano, a religiosidade e a música, a festa e a política.

O antropólogo e pesquisador Luiz Antonio Simas descreve esse espaço como uma espécie de encruzilhada cultural: um lugar onde o sagrado podia incorporar elementos profanos e onde manifestações profanas também adquiriam sentidos sagrados.

Era possível imaginar naquele ambiente um samba de partido-alto, um choro executado por um flautista, uma roda de macumba ou um samba de caboclo.

Essa convivência não era casual. Ela representava uma forma de reconstrução comunitária.

A diáspora africana havia destruído ou fragmentado famílias, territórios e redes de proteção. A cultura produzida pela população negra, entretanto, criava novas formas de pertencimento.

O quintal de Tia Ciata era um desses lugares de reconstrução.

A ponte entre a rua e o poder

A influência de Tia Ciata também ultrapassou os limites da comunidade negra.

Sua casa passou a ser frequentada por jornalistas, intelectuais, músicos e políticos. Em uma cidade profundamente desigual, ela conseguiu estabelecer relações entre mundos que normalmente permaneciam separados.

Uma das histórias mais conhecidas sobre sua trajetória envolve o então presidente da República Wenceslau Brás.

Segundo relatos preservados pela tradição, o presidente sofria com uma ferida que não conseguia cicatrizar. Tia Ciata teria preparado um emplastro utilizando conhecimentos tradicionais relacionados às ervas e à medicina popular.

A ferida teria melhorado e, diante disso, o presidente teria oferecido a ela a possibilidade de pedir o que desejasse.

Tia Ciata teria aproveitado a oportunidade para solicitar um emprego para o marido, João Batista da Silva.

A história é reveladora porque demonstra uma das características mais importantes de sua atuação: a capacidade de transformar relações pessoais em estratégias de proteção e estabilidade para sua família e sua comunidade.

João Batista possuía formação e trânsito social, além de relações com pessoas ligadas ao carnaval e ao mundo político. Ainda assim, os relatos sobre a família indicam que Tia Ciata ocupava um lugar central na dinâmica doméstica e comunitária.

Ela era, sobretudo, uma articuladora.

Foi capaz de estabelecer uma ponte entre a rua e os gabinetes, entre o terreiro e o palácio.

Uma mulher fundamental para o nascimento do samba

A história tradicional do samba costuma destacar homens como compositores, músicos e intérpretes. Entretanto, quando se observa mais profundamente o ambiente no qual o samba carioca se desenvolveu, torna-se impossível ignorar o papel desempenhado pelas mulheres negras.

Tia Ciata é uma das principais representantes desse matriarcado.

Sua casa funcionava como um verdadeiro núcleo de criação cultural. Ali, diferentes músicos e compositores encontravam espaço para tocar, cantar e desenvolver novas formas musicais.

A tradição também associa Tia Ciata à criação de “Pelo Telefone”, composição registrada por Donga e Mauro de Almeida e considerada um dos marcos da história fonográfica do samba.

A autoria da obra, contudo, é objeto de discussões históricas, pois o samba nasceu de uma prática coletiva, construída em rodas e encontros nos quais diferentes pessoas participavam da criação, modificação e transmissão das músicas.

Nesse sentido, mais importante do que atribuir a uma única pessoa a autoria de uma determinada obra é compreender o ambiente coletivo que permitiu o nascimento do samba urbano carioca.

E Tia Ciata estava no centro desse ambiente.

É importante ressaltar, que muito além do samba, e até antes mesmo dele, no terreiro da Tia Ciata já havia intensa presença de muitos chorões.

As outras tias e o matriarcado do samba

Tia Ciata não foi uma exceção. Ao lado dela existiram outras mulheres fundamentais para a formação das redes culturais negras do Rio de Janeiro, como Tia Amélia, Tia Carmen do Xingu e Tia Presciliana de Santo Amaro da Purificação, mãe de João da Baiana.

Essas mulheres desempenhavam funções que ultrapassavam a ideia contemporânea de “musa” ou “personagem secundária”. Elas eram lideranças. Organizavam encontros, preservavam tradições religiosas, acolhiam pessoas, preparavam alimentos, transmitiam conhecimentos e mantinham redes de proteção social.

O samba era apenas uma das dimensões dessa atuação.

Em torno dele estavam a religiosidade, a culinária, a festa, o carnaval, as relações familiares e as formas de sociabilidade.

Por isso, compreender o matriarcado do samba significa compreender o samba como uma forma de organização da vida.

A casa que desapareceu

Ao longo de sua vida no Rio de Janeiro, Tia Ciata morou em diferentes endereços, entre eles a região da Pedra do Sal, o Beco João Inácio, a Rua da Alfândega, a Rua General Pedra e a Rua dos Cajueiros.

Seu endereço mais conhecido, entretanto, foi a casa da Rua Visconde de Itaúna.

O imóvel foi demolido na década de 1940 para a construção da Avenida Presidente Vargas.

O desaparecimento da casa representa uma perda significativa para a memória material do samba.

Durante muito tempo, a importância histórica do espaço foi reconhecida principalmente por sua dimensão simbólica. No entanto, a arquitetura também faz parte da memória.

Para existir um quintal, era necessário existir uma casa. E, para existir aquela casa, era necessário que Tia Ciata tivesse alcançado algum nível de estabilidade econômica em uma sociedade que oferecia poucas oportunidades para mulheres negras.

Documentos encontrados no acervo do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro ajudam a ampliar o conhecimento sobre sua trajetória.

 

Um processo de partilha de bens revela informações sobre sua família, sua morte e seu patrimônio.

Tia Ciata morreu sem deixar testamento. Entre os bens registrados, havia uma quantia depositada na Caixa Econômica. Embora seja difícil converter esse valor para os padrões monetários atuais, o documento demonstra que ela possuía uma condição econômica que permitia certa estabilidade familiar.

Os filhos e as lacunas da história

A documentação também levanta questões sobre a família de Tia Ciata.

A historiografia tradicional afirma que ela teve 15 filhos. Isabel da Costa teria sido sua primeira filha, fruto de uma relação anterior ainda na Bahia. No Rio de Janeiro, Tia Ciata constituiu família com João Batista e teve outros 14 filhos.

O processo de inventário, entretanto, apresenta apenas quatro herdeiros.

Essa diferença entre a tradição oral, os registros históricos e os documentos judiciais demonstra o quanto ainda há a investigar sobre sua vida.

Também é importante considerar que, no contexto dos terreiros, as relações de maternidade e filiação ultrapassavam os vínculos biológicos.

Como mãe pequena, Tia Ciata também era referência para uma extensa família religiosa.

Por isso, a palavra “filhos” pode adquirir diferentes significados quando analisamos a estrutura comunitária dos terreiros afro-brasileiros daquele período.

Os documentos, portanto, não encerram a história de Tia Ciata. Ao contrário, abrem novas perguntas.

A fotografia que ainda não temos

A ausência de uma fotografia autenticamente identificada de Tia Ciata permanece como uma das questões mais intrigantes de sua memória.

Pesquisas antropológicas chegaram a comparar uma fotografia atribuída a ela com imagens de seus descendentes, utilizando proporções e características faciais como elementos de análise.

Os resultados indicaram semelhanças entre a fotografia analisada e os descendentes.

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