NAS TRILHAS DO CHORO: UM OLHAR SOBRE A HISTÓRIA E A PRESERVAÇÃO DO GÊNERO EM CURITIBA


Leonor Bianchi

O livro Nas Trilhas do Choro, da pesquisadora e flautista Ana Paula Peters, é uma obra fundamental para compreender como o choro se enraizou, se desenvolveu e se mantém vivo na capital paranaense. Publicado em 2016 com apoio da Fundação Cultural de Curitiba, o trabalho traça um percurso que vai das primeiras apresentações públicas às rodas de choro contemporâneas, preenchendo uma lacuna importante na história da música popular no sul do Brasil.

Origens e primeiros passos do gênero em Curitiba

A pesquisa começa remontando ao final do século XIX, quando Curitiba viveu um forte crescimento cultural após a emancipação do Paraná. Na época, as apresentações em teatros como o São Theodoro e o Hauer, além das bandas musicais e das reuniões musicais familiares — muito comuns entre as comunidades de imigrantes alemães — prepararam o terreno para a chegada do choro.

Um marco importante registrado na obra é a passagem do flautista Patápio Silva pela cidade em 1907, com três concertos que lotaram os principais teatros locais, demonstrando já naquele início do século o interesse do público paranaense pelo gênero. A tradição das bandas, que animavam festas oficiais, bailes e encontros públicos, também contribuiu muito: muitos músicos que depois se tornariam referências no choro curitibano começaram sua formação nesses grupos, onde se desenvolveu inclusive uma forma de tocar valses e polcas com a expressividade característica do choro.

As rádios e a consolidação do choro local

O livro destaca que a chamada Época de Ouro do rádio — entre as décadas de 1930 e 1940 — foi o momento em que o choro se tornou acessível a todo o público e ganhou projeção em Curitiba. Estações como a Rádio Clube Paranaense (PRB-2), Rádio Marumby e Rádio Guairacá mantiveram conjuntos regionais estáveis, formados por cavaquinho, bandolim, flauta e violão, que acompanharam grandes nomes da música brasileira e difundiram o repertório do gênero diariamente.

A figura mais emblemática desse período é o cavaquinista Janguito do Rosário, à frente de seu próprio regional por mais de 30 anos. A obra ressalta ainda a semelhança entre a improvisação dos primeiros profissionais do rádio e a própria essência do choro: ambos exigem agilidade, escuta atenta e capacidade de se adaptar a qualquer situação.

Lugares, rodas e a tradição viva

Peters percorre também os espaços onde o choro sobreviveu e se renovou: desde as apresentações no Coreto do Passeio Público e na Praça Rui Barbosa, até as rodas atuais em bares, restaurantes e no Palco do Choro e Memorial Nireu José Teixeira, na Praça Garibaldi — onde o grupo Choro e Seresta se apresenta todos os domingos desde 1973, sendo uma das formações mais antigas do Brasil ainda em atividade.

Um ponto central da obra é a própria natureza da roda de choro: um espaço sem hierarquias, onde a transmissão não se faz só por partituras, mas pela tradição oral, pela convivência e pela troca entre gerações. Como lembra a autora, ali não basta saber tocar bem: é preciso saber ouvir, respeitar a vez do outro e colocar o coletivo acima do destaque individual.

Preservação, ensino e futuro

A pesquisa também aborda os desafios e as iniciativas para manter o gênero vivo: a criação da coleção Revivendo, que recupera e preserva milhares de discos de 78 rotações; a chegada do choro às salas de aula, com cursos no Conservatório de MPB de Curitiba e no Ateliê do Choro da Unespar; além de festivais, concursos e encontros que reúnem músicos de todo o país.

Ao final, Nas Trilhas do Choro deixa claro que não se trata de um relato fechado: é um ponto de partida para novas histórias, novas rodas e novas pesquisas. Como escreve a própria autora, o livro é apenas o começo do caminho — e o leitor é convidado a seguir essa trilha por conta própria.

 

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Author: imprensabr