Leonor Bianchi
Quando uma música atravessa gerações, preserva memórias, reúne comunidades e se transforma em uma maneira de expressar a identidade de um povo, ela deixa de ser apenas uma manifestação artística. Pode tornar-se também um patrimônio cultural.
No Brasil, essa compreensão está prevista na própria legislação de proteção ao patrimônio. A Constituição Federal de 1988 ampliou o conceito de patrimônio cultural brasileiro, reconhecendo tanto bens materiais quanto imateriais. Entre os bens imateriais estão os saberes, as celebrações e as formas de expressão musicais, cênicas e lúdicas que constituem referências para os diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
É nesse universo que encontramos algumas das manifestações musicais mais importantes da cultura brasileira. Choro, forró, samba, frevo, maracatu, carimbó, jongo e outras expressões não são apenas gêneros ou ritmos: em diferentes contextos, são também formas de sociabilidade, memória, pertencimento e transmissão de conhecimentos.
O Choro é Patrimônio Cultural do Brasil
Uma das mais importantes conquistas recentes para a música brasileira aconteceu em 29 de fevereiro de 2024, quando o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — Iphan — aprovou, por unanimidade, o registro do Choro como Patrimônio Cultural do Brasil.
O Choro foi inscrito no Livro das Formas de Expressão, categoria destinada a manifestações culturais de natureza imaterial. O reconhecimento considera a tradição das rodas, a transmissão de conhecimentos entre músicos, a relação entre músicos profissionais e amadores e a capacidade do Choro de manter vínculos de identidade e memória coletiva.
O reconhecimento também representa uma mudança importante na maneira de compreender o Choro. Ele não é apenas um gênero musical surgido no Rio de Janeiro no século XIX. É uma prática cultural viva, que se reinventa continuamente e cuja transmissão acontece em rodas, encontros, escolas, conservatórios, projetos educativos e comunidades de músicos.
Assim, quando uma pessoa aprende uma melodia de ouvido, participa de uma roda, ensina um instrumento a outra pessoa ou transmite conhecimentos sobre repertório e interpretação, está também participando de um processo de continuidade patrimonial.
O Forró também é patrimônio brasileiro
O Forró, por sua vez, foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil em 2021, por meio do registro das Matrizes Tradicionais do Forró.
O reconhecimento não se limita a um único ritmo. O conceito de “matrizes” contempla um amplo conjunto de práticas musicais e dançantes relacionadas à tradição do forró, incluindo gêneros como baião, xote, xaxado, arrasta-pé e outras formas musicais associadas às festas, aos bailes e às experiências culturais nordestinas.
A força do Forró está justamente nessa dimensão coletiva. A sanfona, a zabumba e o triângulo acompanham músicas e danças que estão profundamente ligadas às festas populares, especialmente às celebrações juninas, mas que também se espalharam por todo o país.
Em 2026, o Brasil deu outro passo importante: o Iphan, o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores entregaram à UNESCO a candidatura do Forró Tradicional para reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Portanto, é importante distinguir os dois níveis: o Forró já é patrimônio cultural imaterial brasileiro; seu reconhecimento pela UNESCO ainda é um processo internacional em andamento.
O samba e suas diferentes matrizes
O samba também ocupa lugar fundamental nessa história.
No Rio de Janeiro, o Iphan reconhece as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, constituídas pelo samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo.
O reconhecimento chama atenção para algo fundamental: o samba não deve ser compreendido apenas como música. Ele envolve formas de convivência, criação coletiva, transmissão de conhecimentos, celebração e pertencimento.
Essas matrizes estão relacionadas à formação histórica do samba carioca e às influências de diferentes manifestações musicais e culturais, entre elas o jongo, o samba de roda baiano, o maxixe e as antigas marchas carnavalescas.
Há ainda o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil e inscrito pela UNESCO, em 2008, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
O Samba de Roda reúne música, dança, poesia, instrumentos e formas coletivas de participação, mantendo uma forte relação com a história e as tradições das comunidades do Recôncavo Baiano. A UNESCO reconhece sua importância como expressão cultural de matriz afro-brasileira.
Frevo: música, dança e identidade
Outro grande exemplo é o Frevo, manifestação profundamente ligada ao Carnaval de Recife e Olinda.
O Iphan reconhece o Frevo como Patrimônio Cultural do Brasil, e a UNESCO o incluiu, em 2012, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
O Frevo demonstra de maneira particularmente clara como uma manifestação cultural pode ultrapassar a ideia convencional de “ritmo”. Ele reúne música, dança, poesia, movimento, carnaval, capoeira, bandas e uma complexa tradição de associações e agremiações.
Maracatu Nação: memória, música e ancestralidade
O Maracatu Nação, também conhecido como Maracatu de Baque Virado, foi registrado pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2014.
É uma manifestação que articula música, dança, cortejo, religiosidade, personagens simbólicos e ancestralidade. Sua musicalidade é marcada pelos conjuntos percussivos e está profundamente relacionada às tradições afro-brasileiras e à história de Pernambuco.
Em 2025, o Brasil apresentou à UNESCO a candidatura do Maracatu Nação à Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Em 2026, a manifestação permanece entre as candidaturas brasileiras em processo de avaliação internacional.
Carimbó: a força musical do Pará
O Carimbó, manifestação tradicional do Pará, também integra o patrimônio cultural imaterial brasileiro.
Sua prática envolve música, dança, instrumentos de percussão, canto e formas comunitárias de celebração. É uma expressão profundamente ligada à cultura amazônica e às experiências históricas das comunidades paraenses.
Assim como acontece com o Choro, o reconhecimento patrimonial não protege simplesmente uma música gravada ou uma composição específica. O que se busca preservar é o conjunto de conhecimentos, práticas, modos de transmissão e formas de participação social que mantêm a manifestação viva.
Jongo do Sudeste: memória afro-brasileira em forma de música
O Jongo do Sudeste é outro importante patrimônio cultural brasileiro.
Presente historicamente em comunidades de diversos estados do Sudeste, o jongo reúne canto, dança, percussão e formas próprias de comunicação e sociabilidade. Sua história está profundamente relacionada às populações negras e às comunidades formadas durante e depois do período escravista.
No Rio de Janeiro, o Iphan reconhece o Jongo do Sudeste entre os bens culturais de natureza imaterial registrados.
Tambor de Crioula: música, dança e tradição
O Tambor de Crioula do Maranhão também possui reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil.
A manifestação combina percussão, canto, dança e participação comunitária, constituindo uma das expressões mais importantes da cultura popular maranhense e das tradições afro-brasileiras.
O Iphan revalidou seu reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil em 2021, juntamente com o Frevo e outros bens culturais.
Uma lista que revela a diversidade musical brasileira
Quando observamos esse conjunto, percebemos que o patrimônio musical brasileiro é muito mais amplo do que uma simples relação de “ritmos famosos”.
Entre as principais manifestações musicais ou fortemente relacionadas à música reconhecidas como patrimônio cultural imaterial no Brasil, podemos destacar:
- Choro — Patrimônio Cultural do Brasil desde 2024;
- Matrizes Tradicionais do Forró — Patrimônio Cultural do Brasil desde 2021;
- Matrizes do Samba no Rio de Janeiro — samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo;
- Samba de Roda do Recôncavo Baiano — Patrimônio Cultural do Brasil e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade;
- Frevo — Patrimônio Cultural do Brasil e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade;
- Maracatu Nação — Patrimônio Cultural do Brasil desde 2014;
- Carimbó — Patrimônio Cultural do Brasil;
- Jongo do Sudeste — Patrimônio Cultural do Brasil;
- Tambor de Crioula do Maranhão — Patrimônio Cultural do Brasil;
- Repente — Patrimônio Cultural do Brasil;
- Roda de Capoeira — Patrimônio Cultural do Brasil e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A relação poderia ainda ser ampliada para outras manifestações em que música, dança, religiosidade, festa e vida comunitária aparecem profundamente entrelaçadas. Sem contar que existem inúmeras outros gêneros musicais que já são considerados patrimônio imaterial do Brasil; esta é apenas uma pequena lista.
Brasil: um país onde música também é memória
A existência desses reconhecimentos revela algo fundamental sobre a cultura brasileira: a música não é apenas entretenimento.
Ela pode guardar histórias que não foram registradas nos livros, transmitir conhecimentos entre gerações, preservar modos de falar e cantar, reunir comunidades e manter vivas memórias de grupos que durante muito tempo tiveram suas culturas desvalorizadas ou invisibilizadas.
Por isso, reconhecer uma manifestação musical como patrimônio não significa colocá-la em uma espécie de museu. Ao contrário. O patrimônio imaterial só permanece vivo quando continua sendo praticado, transmitido, recriado e apropriado pelas próprias comunidades que o reconhecem como parte de sua identidade.
É justamente por isso que o reconhecimento do Choro como Patrimônio Cultural do Brasil, em 2024, possui uma importância especial. O Choro não é uma música do passado. Está presente nas rodas, nas escolas, nos projetos de educação musical, nos palcos, nas pesquisas, nas gravações e na formação de novas gerações de músicos.
O mesmo pode ser dito do Forró, do Samba, do Frevo, do Maracatu, do Carimbó, do Jongo e de tantas outras manifestações brasileiras.
O patrimônio cultural, nesse sentido, não é apenas aquilo que herdamos. É também aquilo que escolhemos continuar transmitindo.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas da música brasileira: ela não apenas conta a história do Brasil.
Ela é uma das formas pelas quais o Brasil continua contando a sua própria história.
Pelo mundo
Vários ritmos já foram considerados patrimônios e isso não é um privilégio apenas das terras tupiniquins. Veja abaixo, a sonoridade exaltada em algumas nações:
• Argélia: O Ahellil de Gourara é um gênero musical interpretado em cerimônias e representa a tradição de um povoado com mais de 50.000 pessoas.
• Argentina: Apesar de ser uma dança, o Tango também é um ritmo latino bastante conhecido e, inevitavelmente, é correlacionado ao país.
• Bangladesh: Parte da cultura dessa nação, as Baul Songs são feitas por trovadores que viajam pelo território entoando as canções.
• Brasil: O Samba de Roda, da Bahia, e o Frevo, característico de Recife, são os dois ritmos consagrados pela UNESCO.
• China: O país possui inúmeros patrimônios, mas sua musicalidade está nas óperas Kun Qu, Tibetan, Yueju e Peking.
• Colômbia: O ritmo Marimba, reproduzido com um instrumento de toque, é uma referência da sonoridade latina.
• Coréia do Norte: A canção folclórica Arirang é uma referência no país e chegou a ser considerada um hino não oficial da região.
• Estônia, Lituânia e Letônia: As canções bálticas e seus ritmos são as referências dessas sociedades.
• Espanha: O Flamenco é o ritmo conhecido na região e sua exaltação ocorre ao redor de todo o mundo.
• França: A música Gwoka é uma representação cultural das Ilhas de Basse-Terre e Grande-Terre. Sua prática ainda envolve dança e celebrações.
• Índia: As músicas folclóricas da Kalbelia e as danças culturais que envolvem essa cultura na região do Rajasthan, fizeram com que o ritmo fosse um marco.
• Itália: Aqui, a Opera dei Pupi e o Canto a Tenore são alguns dos ritmos eruditos que representam a cultura do país.
• México: A canção tradicional Pirekua, realizada pelo povo Purépecha, e o ritmo dos Mariachi foram considerados patrimônios culturais.
• Moldova: As canções de Natal entoadas pelos homens da região, foram eleitas pela UNESCO como patrimônio.
• Portugal: O Fado, ritmo popular no país, também ganhou o status, devido à sua capacidade de representar a nação.