Conhecendo o repertório do choro e suas histórias


Leonor Bianchi

A partir da proxima semana a Revista do Choro publicará, aos domingos, uma série de artigos voltados para o estudo do choro, especificamente para seu repertório. A série “Conhecendo o repertório do Choro e suas histórias” versará sobre histórias e curiosidades que envolvem composições do século XIX até os dias atuais.

Obras consagradas e esquecidas, como ‘Flor Amorosa’, de Joaquim Callado; ‘Ali Babá’, de Henrique Alves de Mesquita; ‘O corta jaca’ e ‘Atraente’, ambas de Chiquinha Gonzaga; ‘Só para Moer’, de Viriato Figueira da Silva; as quadrilhas do Callado, os tangos de Ernesto Nazareth, entre outras serão comentadas na série.

O objetivo é falar sobre o repertório de choro para quem é ou não especialista no assunto, popularizar e difundir essas composições, revelando curiosidades sobre as mesmas.

O repertório do choro é muito vasto. São muitas épocas, compositores e ritmos que acabam se confundindo e confundindo também quem estuda o choro. A intenção com esta série é escrever sobre o repertório de cada época, começando do início, pelos compositores de choro do século XIX, mas sem querer ser tão rigidamente cronológico.

Danças e maneiras de tocar Choro também serão abordadas

A série também vai falar sobre as danças formadoras do choro, sua predominância em determinadas épocas e como era tocada em cada uma delas. Serão apresentados como essas danças e ritmos formadores do choro (polca, quadrilha, schottisch, habanneira, tango brasileiro e maxixe) chegaram ou foram criados no Brasil e se misturaram, amalgamando-se ao choro.

Um dos aspectos que será discutido na série é a confusão que existe com os termos tango brasileiro e maxixe, que são repetidamente ditos como sendo a mesma coisa e não é.

A palavra maxixe foi escrita pela primeira vez num jornal brasileiro em 1883. A referência a machicheiros e machicheiras (com ch) foi feita em 29 de novembro de 1880 pela Gazeta da Tarde, jornal do Rio de Janeiro, que publicara uma matéria paga na coluna ‘Publicações a Pedido’ nos seguintes termos: “U.R. (traduzidas por Jota Efegê como União Recreativa) – Primeira Sociedade do Catete – Poucas machicheiras… grande ventania de orelhas na sala. Parati para os sócios em abundância. Capilé e maduro para as machicheiras não faltou, serviço este a capricho do Primeiro Orelhudo dos Seringas – O poeta das azeitonas.”

Segundo o cronista Jota Efegê, antes de 1880 não há referência ao machiche ou mesmo aos machicheiros e machicheiras na imprensa carioca. Só em 1883, no Carnaval, a dança é anunciada numa quadrinha e sua prática incitada nas folganças de Momo.

Feniano uma das figiracoes coreograficas do maxixe seculo XX mao 1906

A dança do maxixe fez muito sucesso nos anos de 1870 com uma coreografia que deixava escandalizados os mais conservadores. Dançado nos clubes carnavalescos, chamados naquele tempo de Grandes Sociedades, cafés cantantes e no teatro de revista, na Lapa e na Praça Tiradentes, nas gafieiras chamados de “assustados” ou “crioléus”, na Cidade Nova, três décadas depois seria levado para a Europa pelo dançarino brasileiro Duque. O maxixe era gênero musical que compunha o repertório dos chorões.

Por enlaçar pelas pernas e braços e apoiarem as testas dos pares, a maneira de dançar lhe valeu o título de dança escandalosa e excomungada. A dança foi perseguida pela polícia, igreja, chefes de família e educadores. Para que pudessem ser tocadas e dançadas em casas de família, as partituras de maxixe eram chamadas com o impróprio nome de “Tango Brasileiro”. As músicas “Odeon” e “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth e “O corta jaca”, de Chiquinha Gonzaga são maxixes chamados de tango brasileiro.

Século XIX abre a série

O repertório de choro do século XIX não está documentado em gravações fonográficas pelos seus praticantes da época, já que a indústria fonográfica só viria se estabelecer no Brasil em 1902. Na série apresenraremos materiais que darão uma visão mais abrangente da trajetória destas composições.

Para estudar este repertório recorreremos aos materiais de chorões e copistas que registraram em seus cadernos as composições que realmente eram tocadas naquela época (século XIX). Também recorreremos a gravações dessas composições feitas nas décadas posteriores a chegada do disco ao Brasil. Algumas, clássicas, como a composição de Joaquim Callado, ‘Flor amorosa’, gravada pela primeira vez pelos irmãos Eymard na Casa Edson em 1902 e lançada em 1904.

No vídeo, o disco em 78 rpm com a primeira gravação da música ‘Flor Amorosa’ pelos irmão Eymard. Extraído de link público postado no Youtube.

Flor Amorosa abrirá a série

Uma das músicas mais tocadas do repertório de choro, Flor Amorosa (1880), de Joaquim Callado, guarda muitas curiosidades. A começar com a história de como a composição foi finalizada pelos amigos de Callado em seu enterro e a discussão em torno do termo ‘flor amorosa’ 30 anos após a composição de Callado, por conta do poema ‘Música Brasileira’, de Olavo Bilac, que vaticinava que nós, brasileiros, somos a “flor amorosa de três raças tristes”.

Durante as pesquisas para a produção desta série encontrei diversas menções ao termo ‘flor amorosa’. Muitas delas ligadas à discussão que se estabeleceu no Brasil, no início do século XX quanto à formação da matriz etnocultural brasileira.

O Malho de 21 de janeiro de 1933 com texto sobre nossa formação racial e musical onde destaca-se o termo 'flor amorosa de três raças tristes'.

O Malho de 21 de janeiro de 1933 com texto sobre nossa formação racial e musical onde destaca-se o termo ‘flor amorosa de três raças tristes’.

Foto em destaque, no alto da matéria, de Joaquim Callado, compositor da polca Flor Amorosa.

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Author: imprensabr

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