A crítica de Tárik de Souza para a Gravadora Discos Marcus Pereira


Leonor Bianchi

Discos Marcus Pereira
JB – Domingo, 10 de março de 1974

A Gravadora Discos Marcus Pereira acabava de se lançar no mercado fonográfico brasileiro. Num cenário desolador para a música popular brasileira, abandona pelas grandes gravadoras, que voltavam seus interesses para a música eletrônica, sobretudo a produzida nos EUA, o trabalho monumental que se iniciava naquele ano pelo altruísta Marcus Pereira recebeu destaque do crítico musical Tárik de Souza, que publicou em sua coluna Música Popular, do Caderno B do Jornal do Brasil, a seguinte nota:

Por menos incrível que pareça, ainda não havia no mercado musical brasileiro uma gravadora especialmente ocupada em difundir a cultura do país.

“Existem apenas 800 pontos de venda no Brasil dos quais só 600 funcionam, muitos em más condições. Vamos montar uma distribuidora própria para atingir o estudante e o profissional liberal e outros que poucos frequentam as lojas de discos nacionais”.  (Marcus Pereira)

Em 63 surgiu a Elenco, de Aloysio, de Oliveira de curta mais eficiente duração. No mesmo período de efervescência da bossa nova Roberto Quartin fundou a Forma – e nada mais. Quartin fiz uma segunda tentativa três anos atrás, num selo com o seu nome, que durou os primeiros quatro LPs. E Aloysio anunciava uma volta menos gloriosa na Elenco, com uma espécie de subetiqueta, associada ao repertório, distribuição e vendas da Odeon.

Ousado agora é o ex-publicitário paulista Marcus Pereira. A partir de gravações que distribuia como brindes, teve a vocação de publicitário cortada pelo último deles, em 72, um pacote de 4 LPs de música popular nordestina.

Relançados pela RCA, associados a Marcus, os LPS de 40 mil cópias vendidas em poucos meses apresentaram o nascimento da Discos Marcus Pereira no fim do ano passado suscitada por um LP de frevo e outro de choro, ambos já no mercado.

A seleção do repertório da gravadora, porém, pretende critérios diferentes das anteriores Forma e Elenco. Interessado na música do povo, de autor desconhecido e nos intérpretes inéditos, Marcus Pereira consulta pesquisadores e críticos tentando cobrir os tantos territórios musicais brasileiros ainda virgens.

Sucedendo a coleção Nordeste, por exemplo, a Marcus lançará, em maio, Música Popular do Centro Oeste colhida em São Paulo, estado do Rio, Minas Goiás e Mato Grosso. Nos quatro aparecem modas de viola, calangos cateretês, fandangos, dança de Santa Cruz, ladainhas e benditos por intérpretes locais ou um grupo, espécie de reedição do Quarteto Novo formado pelo violonista Theo de Barros.

Outra nova ideia da Marcos é uma motivação indireta do ouvinte para assuntos antigos. O incansável samba aparecerá em compasso duplo sobre o tema “mulher se queixando de homem”, onde entram Com açúcar e com afeto, de Chico Buarque, Esse cara, de Caetano Veloso e Ronda de Paulo Vanzolini. Um LP tentará selecionar, segundo consulta a críticos, os 20 maiores sambas de todos os tempos. Outro falará exaustivamente de músicas de cangaceiros, outro mais de macumba, e uma inventiva série recordará as décadas recentes, a começar pelos impagáveis anos 50. Cartola terá seu primeiro LP finalmente lançado até o fim do mês. E a única dúvida – se ela existe -, quanto a sobrevivência durável da Marcus, refere-se ao calcanhar de Aquiles do mercado brasileiro: a distribuição dos discos.

“Existem apenas 800 pontos de venda no Brasil dos quais só 600 funcionam, muitos em más condições. Vamos montar uma distribuidora própria para atingir o estudante e o profissional liberal e outros que poucos frequentam as lojas de discos nacionais”.

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