Violonista Gabriel Improta lança seu terceiro CD, Milagre, dia 13, no Sesc Pinheiros (SP)


Redação

O violonista e compositor Gabriel Improta lança, no próximo dia 9, no Sesc Pinheiros (SP), seu terceiro CD: Milagres. O músico carioca também assina os arranjos e a direção musical do álbum, que contou com a participação de João Donato, Marcos Suzano e Carlos Malta, entre outros. Improta vem desenvolvendo o seu trabalho solo nos últimos 15 anos, além de acompanhar grandes estrelas da música brasileira como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Paulo Moura e Carlinhos Brown.

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O repertório mostra um amadurecimento na carreira do músico. Diversas linhas de criação da música brasileira se entrecruzam, tecendo um rico ambiente musical. Embora este trabalho seja normalmente apresentado como “música instrumental”, a tradição da canção brasileira se faz presente desde a música que dá titulo ao álbum – Milagre, de Dorival Caymmi – passando pelo já clássico Passarim, de Tom Jobim, até Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil. As letras não são cantadas, mas elas estão presentes na narrativa musical, orientando os arranjos e estruturando o discurso musical.

Outra vertente importante neste show é o universo do violão brasileiro. O Afrosamba para Baden, uma homenagem a este grande compositor-violonista feita por Gabriel Improta, encaminha para uma releitura do clássico Consolação, de Baden Powell. Graúna de João Pernambuco e Corrupião, de Edu Lobo, arranjada para violão, completam o quadro violonístico. Por fim, a porção samba-jazz da música brasileira está representada por Férias no Acre, música inédita de João Donato, criada em 1966 mas gravada pela primeira vez neste álbum, com participação do compositor ao piano e, ainda, por Choro para McCoy, um choro-maracatú-jazz, vibrante e sempre aberto a improvisações jazzísticas sobre a rítmica brasileira, composto por Improta em homenagem ao grande pianista norte-americano, McCoy Tyner.

O show de lançamento do CD, com os músicos Com: Rodrigo Villa (contrabaixo), Marcelo Martins (sopros), Xande, contará com a participação especial de Daniela Spielmann (sopros).

Ouça (e veja) uma das faixas do CD, a clássica Passarim, de Tom Jobim, no arranjo jazzístico do violonista.

 

O jornalista Hugo Sukman comentou o álbum…

Se é verdade que o artista brinca de Deus no ato de criar, parece mesmo apropriado chamar de milagre um afro-samba-choro que é misto de maracatu, como “Choro para McCoy”, que consegue nos remeter a tantos sentimentos e lugares distintos: a radicalidade do bebop do seu homenageado, o pianista McCoy Tyner, que veio alimentar o free jazz (que a execução do tema emula); as big bands que embalam confortavelmente casais na gafieira, mas que podem criar incríveis variações melódicas; uma estrutura simples, inspirada nos sambas de roda com refrão coletivo e respostas em solos individuais, que resulta requintadíssima; a alternância de ritmos, do ataque afro no violão à Baden Powell na introdução, ao maracatu da primeira parte e o choro na segunda, tendo o samba como base de tudo numa composição que parece querer conter a música brasileira e traduzi-la para o jazz, o nosso jazz, o samba jazz.

Pois bem, esse milagre meio maluco da criação musical resulta – senão ouçam – simples, alegre, fluente, acessível. Toda complexidade fica aqui, no texto do encarte. E no sentimento, sabores e memória que provocam em cada ouvinte.

 Não é o único milagre deste “Milagre”, o terceiro disco do guitarrista, compositor, arranjador e, sim, doutor Gabriel Improta, autor de alentada tese sobre o samba jazz, o movimento da música brasileira que teve seu auge entre final dos anos 1950 e início dos 60 e que tem insuspeitados ecos aqui neste CD.

Vejam bem, “Milagre” não é um disco de samba jazz. É o trabalho de um misto de (grande) músico e (dedicado) musicólogo – a união de ação e pensamento, combinação raríssima – no Brasil de 2016. O que Gabriel traz do samba jazz é alguma sonoridade, claro, alguma forma, alguns temas, até alguns músicos, mas, principalmente, o espírito.

Para Gabriel, há uma continuidade entre o sentido (as palavras, atmosfera, a história) e o som. “Milagre”, a clássica canção de Dorival Caymmi, não por acaso dá nome ao disco, pois talvez seja a música que melhor represente essa ideia. O tema é apresentado com clareza pelo violão de Gabriel, depois é desenvolvido pela flauta de Carlos Malta em pelos vocais do próprio violonista e da cantora holandesa Brancka e termina numa sugestiva jam session bem à maneira do samba jazz. Agora, tente ouvir esse “Milagre” sem se remeter às palavras de Caymmi (embora elas não sejam ditas), à história dos três pescadores em sua aventura no mar, à atmosfera tensa proposta pelo autor?

Em “Passarim”, obra-prima da fase ecológica de Tom Jobim, a clareza da execução violonística de Gabriel resulta da mesma forma, o pássaro voando apenas através da música. Em “Eu vim da Bahia”, de Gilberto Gil, o suingue do violão no samba traz todo o sentido da saudade de um samba de roda ancestral proposto na letra.

A essência do samba jazz, no disco todo em espírito, está de corpo presente literalmente em pelo menos dois momentos. “Férias no Acre” é um tema inédito de João Donato, da época do samba jazz (safra 1966), esquecida esses anos todos apesar de sua evidente qualidade e do estilo cristalino do autor. Gabriel a resgata com participação de Donato ao piano – é um capítulo na história do samba jazz.

Ainda mais cristalino, o samba jazz está na essência do lindo tema do próprio Gabriel, “Bossa lunar”, uma música que traz duas referências fundamentais do movimento: os pequenos grupos de sopro de jazz do final dos anos 50, que têm como símbolo máximo os discos de Miles Davis com arranjos de Gil Evans, e as orquestras brasileiras de gafieira, cuja presença do trombone tão pessoal de Raul de Souza só torna tudo mais evidente.

Nessa busca pelo sentido na música sem letra, Gabriel chegou evidentemente em Egberto Gismonti, compositor que mesmo no auge do cancionismo radical (os anos 1970) optou por seguir um trabalho de música brasileira fora do formato canção. No choro “Sete anéis”, Gabriel exercita sua técnica violonística e abre espaço para o desenvolvimento dos outros músicos do conjunto – é notável, por exemplo, o solo do baterista Rafael Barata, evidente herdeiro dos grandes bateristas do samba jazz, como Edison Machado, Dom Um Romão.

Incomum caso de músico e intelectual, Gabriel Improta quis com este disco unir ação e pensamento, como no âmbito estritamente musical o samba jazz fazia. Como diante de um milagre, a música ocupa todas as dimensões do ser, ambiciona a totalidade, volta à sua origem: a de ser a mais pura expressão do sentimento humano.

Hugo Sukman

Sobre o músico Gabriel Improta

Gabriel Improta é violonista, compositor e arranjador e se doutorou em 2015 em antropologia da música pela PUC-RJ com uma tese sobre o movimento do Sambajazz, da década de 1960. Nos últimos anos tocou e gravou com grandes artistas da música brasileira como Caetano Veloso e Roberto Carlos, Maria Bethânia, Gal Costa, Hermeto Paschoal, Paulo Moura, Armandinho, Francis Hime, Jaques Morelenbaum e Elza Soares, entre outros.

Gabriel Improta pelas lentes de Mariana Avillez

Gabriel Improta pelas lentes de Mariana Avillez

Seu primeiro CD solo, “É o Violão do Brasil”, conta com a participação de alguns dos mais importantes instrumentistas do país e teve direção musical do violonista Marco Pereira. Atualmente Gabriel está lançando seu segundo CD solo –Entre – que teve lançamentos de sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo com a participação especial de grandes nomes da MPB como Wagner Tiso, Na Ozetti, Mauro Senise, Jaques Morelenbaum, Daniela Spielman e Kiko Horta, entre outros.

Gabriel têm tocado regularmente em shows e festivais pelo Brasil e pelos Estados Unidos, Europa e América Central como no Festival de Guitarra de Havana, dirigido pelo compositor Leo Brouwer. Em 2005 o grupo Garrafieira, do qual é diretor musical, arranjador e violonista, ganhou o mais importante prêmio para música no Brasil; o Prêmio TIM, na categoria Melhor Grupo de MPB.

Nascido em 1975 no Rio de Janeiro em uma família de músicos, Gabriel Improta, é mestre em composição musical pela UNIRIO (2007) e estudou guitarra e improvisação no GIT, Musicians Institute, em Los Angeles, com o guitarrista Scott Henderson (2002/2003), onde concluiu o curso Professional Program.

Em seus shows, Gabriel toca um pouco da melhor Música Brasileira e do Jazz, além de suas composições originais em arranjos jazzísticos e virtuosísticos para violão solo ou acompanhado.

Show de lançamento do novo CD Milagre, do violonista Gabriel Improta

Quando: 09/13/2017 08:30 PM

Onde:Sesc Pinheiros – São Paulo

Com: Rodrigo Villa (contrabaixo), Marcelo Martins (sopros), Xande

Figueiredo (bateria).

Participação Especial: Daniela Spielmann (sopros).