O aviamento da viola caipira e a presença do instrumento no choro: Entrevista com Roberto Corrêa


Leonor Bianchi

Recentemente conversei com o pesquisador de viola, músico e compositor Roberto Corrêa, que lançou o livro ‘Viola Caipira: das práticas populares a escritura da arte. O aviamento no Brasil.

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O livro é produto de sua tese de doutorado defendida na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA), em 2014. Nele o autor introduz o leitor no universo da viola de cordas dedilhadas desde sua chegada ao Brasil, onde foi utilizada como um importante instrumento no período colonial pelo seu caráter de instrumento acompanhador de cantos sacros e profanos.

A presença da viola no Brasil é citada por viajantes europeus do século XIX, mas o autor se atreve a história do instrumento no século XX, especialmente, na segunda metade deste, analisando acontecimentos que foram determinantes para a consolidação da viola caipira no atual cenário da música popular brasileira.

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Segundo o autor, mais do que um ressurgimento da viola devemos pensar em um aviamento. Para ele este ‘aviamento’ significa a presença permanente da viola na música popular brasileira e a sua exaltação nos últimos anos. O conceito de aviamento para o autor estaria relacionado ao fato de a viola sempre estar presente nas práticas musicais da vida rural e até mesmo nos centros urbanos, onde ele cita a presença do instrumento em diversos estilos, como, por exemplo, no rock e no choro.

No contexto do Choro, o autor nos conta que o compositor e violeiro Julião talvez tenha sido quem introduziu a viola caipira no choro, em gravações feitas em um de seus LPs, em 1960.

Perguntei qual seria a atuação da viola num regional de choro e ele disse, que uma vez, conversando com o violonista Maurício Carrilho este teria afirmado que a viola caipira se encaixaria muito bem no choro como instrumento acompanhante, ao lado do violão de seis cordas, do violão de sete cordas e do cavaquinho, complementando a família das cordas. Seria o instrumento soprano do quarteto.

Leia agora a entrevista.

Leonor Bianchi (Revista do Choro): Qual a importância da Viola no rol dos instrumentos que conhecemos hoje?

Roberto Corrêa: No Brasil encontramos espalhadas por todas as regiões violas de cinco ordens de cordas, a saber: viola caipira; viola-de-cocho; viola-de-cantoria; viola-de-samba; viola-de-buriti e a viola caiçara.

Elas descendem de violas portuguesas e estão aqui desde o período da colonização. Estes instrumentos foram e ainda são utilizados em diversas práticas musicais desde as tradicionais até as contemporâneas.

Revista do Choro: O que você defende neste livro?

Roberto Corrêa: Está acontecendo no Brasil uma espécie de movimento cultural de expansão do uso da viola caipira. Para relatar este fenômeno eu utilizo o termo avivamento e não o termo ressurgimento, já que a viola sempre esteve presente nas manifestações musicais tradicionais e nas duplas caipiras.

A partir da década de 1960, a presença do instrumento tem sido cada vez mais evidenciada em diferentes cenas musicais, tanto no meio rural quanto nos grandes centros urbanos. O livro mostra este percurso: das práticas populares à escritura da arte.

Revista do Choro: Quem introduziu a viola no choro?

Roberto Corrêa: Não sabemos ao certo, mas o violeiro Julião, considerado o rei da viola, em meados do século passado, gravou choros no seu primeiro Long Play de viola instrumental, no ano de 1960.

Ouça as faixas

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Revista do Choro: Quem toca viola no choro atualmente? Você poderia citar algumas gravações?

Roberto Corrêa: Muitos violeiros tocam choros na viola. Eu sempre toco algum choro em meus recitais. No CD Crisálida, de 1996, gravei alguns choros com o Alencar Sete Cordas.

O violeiro Cacai Nunes com o Regional Chora Viola tem realizado um trabalho bem consistente com o choro.

Para assistir ir uma interpretação de Cacai Nunes e sua viola chorona clique aqui.

Revista do Choro: Qual é a função da viola no regional de choro, como ela ‘atua’ com relação aos outros instrumentos?

Roberto Corrêa: Certa vez, o musicista Mauricio Carrilho me disse que a viola caipira se encaixaria muito bem no choro como instrumento acompanhante, ao lado do violão de seis cordas, do violão de sete cordas e do cavaquinho, complementando a família das cordas. Seria o instrumento soprano do quarteto.

Revista do Choro: Das violas que você cita no livro qual delas você viu ser utilizada num choro?

Roberto Corrêa: Por enquanto, a viola caipira é o instrumento que está sendo mais utilizado no choro.

Revista do Choro: A viola é um instrumento associado às tradições, como você mesmo menciona na apresentação do seu livro. É uma cultura que passa de pai para filho, de avô para neto… Como você avalia a transmissão cultural dos saberes dos violeiros, inclusive dos que constroem a viola, os luthies tradicionais, e da cultura mesma da viola para as novas gerações hoje e como você vê essa característica cultural própria da viola no futuro?

Roberto Corrêa: O processo de transmissão do conhecimento na viola se dava até pouco tempo na oralidade, geralmente de pai para filho, de avô para neto. A partir de meados da década de 1980 iniciou-se no Brasil o processo de escolarização da viola. Concomitantemente, a difusão da escrita musical para o instrumento facilitou o repasse do dos fundamentos técnicos do instrumento. Atualmente a cena da viola no Brasil é intensa e diversa. A viola vem fazendo o mesmo percurso que violão fez até tornar-se um instrumento de música clássica.

Revista do Choro: Como o público ‘recebe’, se relaciona, ouve viola fora do eixo Minas, Mato Grosso, interior de São Paulo?

Roberto Corrêa: Temos público para música caipira tradicional, onde a viola é o principal instrumento: folias de reis, do divino, catiras, curraleiras, lundus, dança de São Gonçalo, etc. E temos um grande público para a música caipira das duplas, para a música caipira contemporânea e para a música caipira erudita. Um grande público espalhado por todo o país.

Como ilustração, uma interpretação do choro Odeon, de Ernesto Nazareth, com Roberto Corrêa (viola caipira)  e Nelson Faria (guitarra).

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