Fica triste, não. Fica com vergonha!


Leonor Bianchi

Sobre minha crítica a respeito desse concurso de violão que está rolando por aí.

Acordando agora na madruga para mais um dia de trabalho vi que a produtora do concurso interagiu na publicação que eu fiz com um bonequinho de tristeza, ou de raiva, não sei, vou ter que voltar lá no post pra ver, mas acho que é de tristeza… Aí escrevi minha replica…

Não adianta ficar triste, tem que trabalhar com coerência, tem que ser humilde, verdadeiro, parceiro. Assim fica muito discrepante. Conta pras pessoas que vc sequer respondeu minha mensagem quando eu pedi um depoimento do Yamandu, seu marido, para uma campanha que eu estava produzindo, sorteando um violão para um leitor da Revista do Choro. Era uma campanha séria e dela dependia a sobrevivência da revista e a minha própria. Você nunca me respondeu, ignorou. Talvez porque eu não tivesse dinheiro pra te pagar, não é mesmo, pra pagar o cachê do Yamandu. Eu sei lá. Eu sei que mesmo no meu Face, no meu Zap, com o meu e-mail… vc ignorou minha comunicação. Engraçado, que agora você veio rapidinho botar um bonequinho nesse post, mas essa outra demanda que eu tinha, um depoimento do Yamandu, que me ajudaria a comer e a sobreviver, você ignorou. E eu ainda insisti nessa comunicação. Tadinha de mim…

Agora vem você oferecer um prêmio de R$ 1.500 para os seus colegas violonistas? Não fica triste, não, fica com vergonha de pensar só no seu umbigo e querer o dinheiro só para o seu cachê e pro do Yamandu. Teu marido só sai de casa pra tocar se o cachê for milionário. Vergonha. O público que aplaude ele deveria parar pra pensar um pouco a respeito disso. Pra mim vocês não estão fomentando nada a não ser a cirandinha de vocês.

Eu vou produzir um prêmio agora também, vou dar pouca grana, cobrando bilheteria, igual a vcs, mas vou dar contrapartida pra quem participar da premiação: além da assinatura da Revista do Choro, a pessoa ganhará um livro. Não vou subjugar o participante do meu prêmio e olha que eu não saio de casa pra tocar só por cachês milionários, e olha que eu tenho mais tempo de estrada que vocês tocando…

Você é brasileira? Tava pra te perguntar isso já há algum tempo. Não, nada demais; só queria saber se você é brasileira. Caso não seja, você já tentou fazer uma premiação dessa no seu país de origem? Por que não? Hummmm Conta pra gente. Eu tenho interesse em saber porque você escolheu o Brasil para se naturalizar, viver, trabalhar e produzir esse tipo de prêmio que você tá fazendo agora, que para mim é um absurdo e um acinte a minha inteligência. Faz isso lá pros seus conterrâneos, na sua terra, ao invés de vir aqui subjugar o povo brasileiro, chamar a gente de burro.

Triste ficou eu aqui na minha batalha diária pra comer vendo vocês fazerem isso e serem aplaudidos de pé.

Poxa, a assinatura da Revista do Choro é tão barata pra sua realidade! Assina! FOMENTE! Porra nenhuma. Tá nem aí. Já sai para tocar com o projeto pago, se tiver mais gente pagando bilheteria… melhor ainda. Por que vocês até hoje não assinaram a única revista sobre choro que existe no mundo? São produtores de um prêmio de violão, o instrumento mais falado numa roda de choro… e nunca assinaram a Revista do Choro? KKK Comédia!

Por que o Yamandu só dá entrevista pra grande imprensa?Eu já solicitei várias entrevistas com ele e ele (ou sua assessoria) também nunca nem respondeu.

Então, querida, não fica triste, não, fica com vergonha de morar num país fodido, como o Brasil e ao invés de dividir e compartilhar o que você quer para você, você querer só para você, e para os outros você oferece uma premiação ridícula, como essa. Tem um aparelho gigantesco em volta de você, pessoas de alto gabarito do violão brasileiro atuando ao seu lado nessa equipe, o que, aliás, me surpreendo em ver… para mim estão queimando seu filme… violonistas de 50 anos de estrada, professores… aplaudindo esse absurdo que você tá produzindo -, e não sabe trabalhar. Ou não quer.

Então, não tenha raiva nem tristeza, tenha vergonha e trabalhe com coerência e respeito ao seu próprio parceiro de palco no futuro. É só isso.

E não conte comigo pra tapinha nas costas. Se fizer merda eu vou criticar, se fizer coisa boa eu vou pautar pra revista e vou enaltecer. Tenho filtros. Qual é? Estou trabalhando desde 14 anos de idade e vou fazer 44. Já entrevistei mais pessoas do que o público para quem você tocou a sua vida inteira reunido em todos os teatros juntos. Já escrevi matérias a perder a conta para a imprensa diária por 15 anos, já publiquei livros em idiomas que você não saberia nem ler… produzi mostras e festivais de cinema por mais de 10 anos sem recurso nenhum dialogando com uma comunidade extremamente carente e fazendo o projeto como se ele estivesse acontecendo num grande aparelho cultural do Rio de Janeiro ou de qualquer outra grande capital mundial, com a mesma qualidade. Tenho filtros. Só de bater o olho eu já sei do que se trata.

Então, respeite a minha crítica, assim como eu respeito o seu trabalho e aproveite a mesma para no ano que vem aprimorar o seu prêmio e não subjugar o seu próprio parceiro de palco, porque isso é vergonhoso.

Eu só acredito em projetos que tenham alguma função social e o seu não tem nenhuma, cumpre apenas o papel que você quer representar e que, aliás, representa muito mal, porque esse vídeo, sem sacanagem, afasta qualquer pessoa da inscrição. Eu sugiro que você peça outra pessoa para gravar esse vídeo. Mas enfim, é aquela velha história, né? Você de repente só fez esse vídeo para constar, porque o projeto já está pago e você nem precisa de pessoas inscritas, você já tem algumas pessoas em volta dele, que você convidou para participar e sabe que vão se inscrever e não quer mais muita gente em volta disso para não ter muito trabalho na hora de analisar o que vai chegar. Então esse vídeo aí tá ótimo para o que se presta. Pelo visto ele não quer convidar ninguém kkk

Enfim, querida, bom trabalho pra você! Boa sorte! Seja feliz. Eu não aplaudo e acho um absurdo isso o que você está fazendo, mas existe público pra tudo, não é mesmo?

Fomente!
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