Tinhorão, Cartola e uma gravadora de tirar o chapéu


Leonor Bianchi

Seguindo com a série Memória Discos Marcus Pereira, hoje relemos a crítica de José Ramos Tinhorão feita ao LP de Cartola, gravado pela Discos Marcus Pereira em 1974.

Ainda neste artigo, leia a abertura do primeiro capítulo do livro ‘Discos Marcus Pereira: uma história musical do Brasil’, do jornalista André Picolotto, lançamento da Editora Pizindim.

O livro conta a história dessa gravadora bastante importante para a música brasileira, responsável pelos primeiros LPs de Cartola, Donga, Paulo Vanzolini e Quinteto Armorial e pelo registro em disco de manifestações folclóricas e culturais de todas as regiões do Brasil. Para adquirir o livro, clique na imagem da capa, abaixo.


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Cartola, aos 65 anos

Angenor de Oliveira, o Cartola, tinha o hábito de acordar cedo, todos os dias. Regava as plantas do jardim, saía, comprava pão e jornal, tomava um copo de cerveja, outro de conhaque, voltava. Só ia trabalhar depois do almoço preparado pela esposa, dona Zica, com quem morava no Morro da Mangueira. Depois, hora da sesta, ia dormir, e que não fossem acordá-lo. Naqueles primeiros anos da década de 70, o poeta era contínuo de repartição pública, servindo cafezinho em gabinete de ministro. O emprego, arranjado por amigos, dava-lhe uma renda fixa mensal, a complementar a de shows eventuais, de algum direito autoral.

Até que o produtor João Carlos Botezelli, o Pelão, bateu-lhe à porta e propôs fazer seu primeiro LP, para a gravadora Discos Marcus Pereira. Era começo de 1974. Cartola tinha 65 anos.

Antes, participara apenas de gravações ocasionais, sempre dividindo espaço com outros artistas. A primeira vez foi a bordo do navio Uruguai, que aportou na costa do Rio de Janeiro em 1940. Dentro da política de boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt, o maestro Leopold Stokowski vinha registrar artistas populares do Brasil. E Cartola, indicado a Stokowski por Heitor Villa-Lobos, cantou um samba de sua autoria, num disco – Native Brazilian Music – com canções de Pixinguinha, Donga, Jararaca & Ratinho, João da Bahiana, Zé da Zilda. Participou também, em 1968, do LP Fala Mangueira!, ao lado de Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Odete Amaral e Carlos Cachaça, seu amigo e maior parceiro.

Cartola fora um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, em 1928, e grandes nomes da música brasileira, de diferentes eras, gravaram suas composições. Teve o primeiro samba vendido para Mário Reis em 1929, quando tinha 21 anos. Em 1933, Francisco Alves fez sucesso com “Divina Dama”, o que valeu a Cartola a alcunha de “Divino”, dada pelo jornalista Lúcio Rangel. Mas depois de alguma popularidade nos anos 30 e 40, viúvo da primeira esposa, Deolinda, e curando-se de uma meningite, Cartola sumiu da Mangueira e da música. Muitos o davam como morto.

Redescoberto na década de 50 pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, lavando carros num estacionamento de Ipanema, o poeta voltou, devagar, a ser presença no cenário musical da época. Fundou com dona Zica um restaurante de sucesso, o Zicartola; ali, músicos da nascente bossa nova misturavam-se aos grandes compositores do samba – ele, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Ismael Silva. O interesse renovado fez com que Nara Leão gravasse “O Sol Nascerá”, parceria de Cartola e Elton Medeiros, em seu LP de estreia, de 1964. Durou pouco; o Zicartola falido, o casal volta, endividado, à existência humilde do morro. Mas os sambas de Cartola seguem no rádio, com Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro, Gal Costa, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Elza Soares.

Faltava apenas o autor gravar sua obra. A oportunidade chegou – na velhice.

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Se Cartola acumulava, em 1974, carreira musical de quase cinco décadas, João Carlos Botezelli, o Pelão, não completara nem um ano como produtor de discos. Mas seus dois LPs até então – de Nelson Cavaquinho e Adoniran Barbosa, ambos para a Odeon – renderam prêmios, imprensa, reconhecimento. E, da mesma forma que Cartola, Nelson e Adoniran eram artistas de longa história e reconhecimento tardio na música popular brasileira.

Nascido em São José do Rio Preto, descendente de italianos, Pelão começou a frequentar, em meados dos anos 60, os bastidores do show Opinião, onde fez amizade com vários compositores da velha guarda do samba carioca. Morava em São Paulo, mas ia ao Rio de Janeiro, com o pouco dinheiro que tinha, só para ver as apresentações. “Depois saía com o Nelson Cavaquinho pra beber. E o Nelson é três dias e três noites, direto. Sem dormir”, conta, em entrevista no seu apartamento no bairro Perdizes, em São Paulo². “Ali eu conheci muita coisa. E você conhecendo uma pessoa que é bom caráter, que é sério, nesses lugares, você constrói tudo, rapidinho”.

Cartola

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Fonte das imagens do Jornal do Brasil: Hemeroteca Digital Brasileira