Nossa infância musical


Leonor Bianchi

Nossa infância musical

Quero fazer uma matéria falando sobre a nossa mais tenra infância e a nossa mais antiga memória musical, passando pela infância dos 4, 5 aos 10, 12 anos de idade. Eu lembro muito do repertório que escutava nessa época, e ninguém, absolutamente nenhum dos meus amigos escutava o que eu escutava. Eu ouvia todas as maiores big bands norte-americanas, todos os grandes jazzistas, saxofonistas, trompetistas, e todos os naipes de sopro que vocês possam imaginar. Meu pai amava saxofone porque havia tocado o instrumento na banda do Colégio Pedro Segundo.

Papai não ouvia muito música de câmara, seu repertório era mais popular.

Além do jazz, eu ouvia muita bossa nova. Eu cantarolava Wave fazendo badabadá muito menininha ainda, e amava Os Cariocas!!! Os clássicos da bossa nova, eu conheci no ventre da minha mãe; meu pai teve todos os discos de bossa nova que foram lançados. Eu gostava muito também de samba. Lembro que era diferente ouvir o disco de Vinícius de Moraes e Baden Powell, Afro-sambas. Era um repertório inóspito para uma criança, e eu levava essas músicas, cantava mesmo, pros meus amigos. Eles não conheciam nada disso. Só conseguia interfacear com um grupo de amigas, três irmãs, Michele, Tati e Francine, nunca as mais vi.

A criançada ouvia Xuxa, Balão mágico… depois, na pré-adolescência, as meninas da rua começaram uma curtir Menudo, o que eu nunca ouvi e não sei até hoje o que que é, foi srsr. Já depois de algum tempo de sucesso do Menudo, meu pai chegou um dia em casa do trabalho com vários LPs. Levou dois pra mim, mas eu acho que ele levou de sacanagem, ele ganhou na loja onde sempre comprava discos, no centro do Rio. Ele ganhava discos de brinde, e aí nesse dia ele ganhou um disco da Xuxa, que tinha aquele clássico kkkk (aquele clássico é ótimo) ‘ilarilariê’, e ganhou um disco do Menudo. Lembro que quando ele me deu esses dois LPs eu nem abri. Convidei toda galera da rua pra ficar embaixo da janela e lancei os LPs. Eu nem cheguei a colocar na vitrola. Meu pai ria muito! Eu não conseguia curtir mesmo, e eu não falo isso com orgulho de nada, não. É porque não era o meu gosto musical e eu ainda achava aquelas propostas sonoras muito cruas. Embora os arranjadores da Xuxa fossem bastante experientes e comercialmente inteligentes, pra mim não era atrativo, eu gostava de bossa nova e samba. Meu pai ouvia muito também samba jazz. Tudo do João Donato. Cresci ouvindo João Donato. Meu pai também ouviu muito Paulo Moura, como uma vez eu já mencionei aqui em algum momento. Fazia parte do repertório de sopristas que ele cultuava.

O que você ouvia nessa idade?

Será que essa memória musical que a gente traz da infância constrói um pouco da nossa personalidade na ‘vida adulta’, e até mais profundamente querendo digredir sobre o tema, será que ela também ajuda a formar o nosso caráter?

Quero produzir essa pauta em algum momento.

 FB_IMG_1581246861788 FB_IMG_1581246861788 FB_IMG_1581246867965 FB_IMG_1581246870757