Frutos e raízes da vida-obra de João Pernambuco


Por José leal*

Prefácio para a nova edição do livro João Pernambuco: arte de um povo, de José Leal e Artur Barbosa

Completando mais de três décadas da premiação no concurso nacional de monografia da FUNARTE e edição do livro João Pernambuco: arte de um povo, a Editora Flor Amorosa toma a imprescindível iniciativa de reedição desta obra. O empreendimento, além de propiciar às novas gerações o acesso a uma parte da rica história da música popular brasileira, possibilita atualizar informações complementares da pesquisa iniciada em 1980, acrescido ao registro da difusão, alcance e desdobramentos gerados pela edição da vida-obra do magnífico compositor e violonista João Pernambuco, até os dias atuais.

Fundamentado no princípio de colher dados que revelassem substâncias do fruto à raiz de uma arte cultivada e gerada no seio do povo, a pesquisa que compõe o livro João Pernambuco: arte de um povo, mesmo após ser premiado e editado nunca foi interrompida. A continuidade fazia-se necessária, pois o objetivo maior era um aprofundamento que pudesse revelar o sentimento, o processo vital da energia criadora coletiva que a arte do povo expressa através de seus expoentes. E, é claro e evidente, que João Pernambuco é o grande expoente da arte musical do violão brasileiro.

Constatando a reduzida e fragmentada documentação sobre o tema, a pesquisa foi complementada com depoimentos legitimamente registrados nas fontes originais obtidas através de longos e diversos percursos. A longa caminhada foi iniciada com a minha viagem do Rio de Janeiro destino a Porto Alegre, onde realizei a entrevista com Jandyr Guimarães, sobrinho de João Teixeira Guimarães, João Pernambuco. As narrativas e novas rotas foram enriquecidas após depoimento de Jandyr. Cabe aqui ressaltar, que na ocasião, Jandyr apresentou a árvore genealógica da família, que contestou a origem de que Teresa Vieira Guimarães, a mãe de João seria filha de índia da tribo Caeté. Isso possibilitou constatar e retificar o fato de que Teresa era filha de um casal de descendentes de portugueses. Além disso, possibilitou delinear os próximos passos da trajetória ao informar a existência do seu tio João Elpídio Alves Mendes, o Joca, irmão de João Pernambuco por parte da mãe, com 86 anos de idade na época, residente no bairro Vila da Penha, subúrbio carioca.

Entre diversas visitas à sua residência, Joca prestou autêntico testemunho sobre os tempos vividos ao lado de João. Entre detalhadas informações, ali foi revelado o fato de que João Pernambuco, anos antes de morrer, em 1947, já desmotivado por amarguras vividas, havia depositado seu violão e todo o acervo de sua trajetória em um baú, e parado de tocar. Joca afirmou que foi uma ingratidão por parte de Villa Lobos contratar João, exímio violonista e compositor, para trabalhar como porteiro na SEMA – Superintendência de Educação Musical e Artística, dirigida por Villa. Além disso, uma das maiores decepções foi a questão de “Luar do Sertão”, melodia de João Pernambuco e letra de Catulo da Paixão Cearense, ter sido registrada por Catulo como sendo ele seu único autor. Esta polêmica autoral mereceu um capítulo especial nesta obra.

Em certo encontro Joca revelou a bela surpresa que manteve guardada consigo: o baú de João Pernambuco! Transcorreu-se assim o momento épico emocionante e memorável de abertura do baú que guardava o rico tesouro de quase um século de história! Além do violão, ali estavam relíquias, como o álbum fotográfico, anotações de próprio punho de João Pernambuco – embora ele não tivesse muito estudo e não dominasse o universo das Letras -, folhetos, partituras e cifras escritas por Quincas Laranjeiras – Joaquim Francisco dos Santos -, único companheiro a quem João sempre confiou a tarefa de escrever cifras e partituras de músicas de sua autoria.

O acervo sob a guarda de Joca enriqueceu a monografia e elucidou diversas dúvidas. Foi também a fonte que transformou o Projeto Lúcio Rangel de Monografia, da Divisão de Música da FUNARTE, tendo Hermínio Bello de Carvalho como Diretor adjunto em um projeto integrado ao do livro; a gravação e lançamento de um LP,que foi o disco “João Pernambuco – 100 Anos”, produzido no Studio Rancho, no Rio de Janeiro, em 1982, pela FUNARTE/ Instituto Nacional de Música (INM)/ Divisão de Música Popular, com produção artística de Antonio Adolfo, assistência de produção artística e de estúdio de Maurício Carrilho, e produção executiva de Júlia Peregrino.

Assim, a ‘obra-vida’ de João Pernambuco ganhou um valioso resgate cultural e ampliou as formas de difusão com o LP interpretado por Antonio Adolfo (piano) e a geração de novos talentos, que formavam o grupo ‘Nó em Pingo D’água’, integrado por Mário Sève (flauta/ sax), Jorge Simas (violão de 7 cordas), Rogério Souza (violão de 6 cordas), Pedro Amorim (bandolim), Wanderson Martins (banjo/ cavaquinho) e Márcio Gomes (pandeiro). As músicas do LP tiveram arranjos do ‘Nó em Pingo D’Água’, Antonio Adolfo e Maurício Carrilho, e participações especiais de Maurício Carrilho (violão de 6 cordas) na faixa “Interrogando”, Mauro Senise (Sax Soprano) na faixa “Sonho de Magia”, e Norato (Trombone) na faixa “Rosa Carioca”. Esse LP foi contemplado com o Prêmio Playboy. Quinze anos depois foi digitalizado, remasterizado e lançando em CD pela Atração Fonográfica/ Itaú Cultural, com músicas do vasto repertório de João Pernambuco: “Interrogando”, “Mimoso”, “Sonho de Magia”, “Graúna”, “Choro em Sol”, “Sentindo”, “Rosa Carioca”, “Brasileirinho”, “Dengoso”, “Valsa em Lá”, “Sons de Carrilhões” e “A Estrada do Sertão”.

Registro fotográfico no Studio Rancho quando por ocasião da gravação do disco “João Pernambuco 100 anos”, em 1982. Da esquerda para a direita, em pé: Júlia Peregrino, Mauro Senise, Rogério Souza, Pedro Amorim, Wanderson Martins. Agachados, da esquerda para a direita: Mário Sève, José Leal, Jorge Simas, Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Carrilho. Dessa foto estão ausentes Antonio Adolfo e Márcio Gomes, e Norato que participaram do projeto.

As duas obras, o livro e o disco produzidos em 1982 foram lançadas no ano seguinte com espetáculos no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, com direção de Túlio Feliciano, abrilhantado com os músicos participantes da gravação do LP, para o qual tive a imensa satisfação de redigir o texto de encarte com novas informações que não constavam do livro.

O desdobramento e alcance da obra de João Pernambuco foi ganhando mais dimensão, novos arranjos, mobilizando diversos artistas, diversificando e multiplicando novas interpretações do repertório de João Pernambuco. Minha profunda interação com a vida-obra do grande mestre me deu inspirou para escrever a letra para sua linda melodia, o choro “Brasileirinho”, a qual teve a honrada gravação da cantora Nara Leão, em 1983, no LP ‘Meu Samba Encabulado’ (Polygram/ Philips), posteriormente remasterizado, digitalizado e relançado em CD, em 2004. Nara Leão deixou seu comentário sobre a letra no encarte do disco: “João Pernambuco é o compositor que este ano festeja seu centenário. José Leal colocou belos versos e o ‘Nó em Pingo D’água’ toca comigo num arranjo primoroso de Luís Otávio Braga”. Assim, a cantora Nara Leão deixou registrado o choro “Brasileirinho” com seu afetuoso e claro canto:

            Doce melodia és tão triste

            Penso até que tu existes

            Pra eu não me entristecer

            Vem… chega assim

            Vem pro meu lado

            E me deixa estonteado

            Com você eu arranjo

            Um novo jeito de viver

            Vem, vem, vem, vem

            Vem com este jeito delicado

            Eu assim não tenho medo

            De por você me perder

            Vem, vem, vem, vem

            Oh, minha doce melodia

            Dê-me um beijo demorado

            Tô assim todo tomado

            Dos compassos de você

            Vem, vem, vem, vem

            Me entrelaço na harmonia

            Que penso que sou você

            Vai, vai, vai

            Vai, mas fica aqui

            Mais um pouquinho

            Que um dia ainda faço

            Um belo verso pra você

            Não me esquecer

            Vai, vai, vai, vai

            Leva este seu eu

            Brasileirinho

            Nossa gente tem no peito

            Sentimento de você

Em seguida, a linda toada “A Estrada do Sertão” para a qual já havia sido composta letra por Wilson Woodrow Rodrigues, em 1946, recebeu nova letra de Hermínio Bello de Carvalho, tendo ampla difusão e um imenso efeito multiplicador, fazendo parte do repertório dos shows de lançamento do livro e do disco comemorativos aos 100 anos de João Pernambuco, com interpretação de Antonio Adolfo ao piano. Posteriormente, a música foi gravada por Elba Ramalho, Zezé Gonzaga, Alaíde Costa, Cida Moreira, Moacyr e Sanra, Mariana Baltar, Nilson Chaves, Ivan Vilela e Daniella Gramani, Pena Branca e Xavantinho, Conversa Ribeira e Orquestra Municipal de Jundiaí entoando a cantoria:

            Coisa que não arrenego

            Nem tão pouco desapego

            Ter gostado de você

            Foi gostar desenchavido

            Encruado e recolhido

            De ninguém se aperceber

            Matutando vou na estrada

            Nos meus óio a passarada

            Faz um ninho pra você

            Nos teus óios faz clarão

            É um verde, um azulão

            Tiê sangue furta cor

            Que me dá desassossego

            Que suga nem morcego

            Mangando que é beija-flor

            Não me encrespe a vida assim

            Já me basta o que de mim essa vida caçoou

            Não me faz essa graçola

            De me abrir essa gaiola

            Pra depois não me prender

            Canta firme juriti

            Vê se entoa uma canção

            Sabiá me roça aqui

            Bem junto do meu coração

            Pousa aqui meu colibri

            Vê se tu tem pena d’eu

            Quero ser teu bacuri

            Quero ser de voismecê

As homenagens mais que merecidas à obra-vida de João Pernambuco multiplicaram-se à época.  Durante as pesquisas foram registradas a existência da Rua João Pernambuco, no Bairro de Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro. Em 1991 foi fundada a Escola Municipal de Artes João Pernambuco, na Rua Barão de Muribeca, 116, no bairro de Várzea, zona oeste de Recife. Em 1983 foi prestada uma homenagem com uma romaria ao túmulo de João Pernambuco, no cemitério do Catumbi, onde foi depositada por amigos, familiares e admiradores do músico uma coroa de flores em nome do Clube do Samba. Numa iniciativa de João Nogueira, presidente do Clube do Samba, foi organizada em sua sede, em novembro daquele ano, o evento comemorativo aos 100 anos de João Pernambuco, com o lançamento do livro “João Pernambuco: arte de um povo”, e show do violonista e pesquisador da obra de Pernambuco, Turíbio Santos.

No mesmo mês daquele ano foi publicada no Caderno B do Jornal do Brasil uma matéria de página inteira de minha autoria em homenagem a João Pernambuco. E as merecidas homenagens ao ‘Poeta do violão’ prosseguiram quando fui entrevistado no programa “Música também é notícia”, de Luiz Saroldi, na Rádio Jornal do Brasil AM, com participação especial de Raphael Rabello, que interpretou composições de João Pernambuco em seu magnífico violão de sete cordas.

Com músicas gravadas por exímios instrumentistas, como Dilermano Reis, Nicanor Teixeira, Turíbio Santos, Sebastião Tapajós, a imensa importância do compositor e violonista João Pernambuco vira notícia.

Em 1991 foi lançado o CD ‘Raphel Rabello e Dino 7 Cordas’ pela Caju Music, com as músicas “Interrogando”, “Sons de Carrilhões”, “Graúna” e “Sonho de Magia”.

Em 1992 foi gravado, em Recife, o CD ‘Caio Cezar interpreta João Pernambuco’, lançado em 1996 pela gravadora Velas, e em 2000 o CD “João Pernambuco”.

Com produção de Fernando Faro e Lilian Aidar, em agosto de 1999 Baden Powell gravou, no SESC São Paulo, o CD “João Pernambuco e o Sertão”, lançado em maio de 2000 com o seguinte repertório e arranjos do próprio Baden: “Luar do Sertão” (João Pernambuco/ Catulo da Paixão Cearense); “Brasileirinho” (João Pernambuco/ José Leal), participação especial de Leandro Carvalho, “Sons de Carrilhões” (João Pernambuco), “Valsa em Lá” (João Pernambuco), participação especial de Leandro Carvalho; “Graúna” (João Pernambuco), participação especial de Leandro Carvalho; “Dengoso” (João Pernambuco), participação especial de Leandro Carvalho; “Estudo N°1” (João Pernambuco) participação especial Leandro Carvalho; “Pó de Mico” (João Pernambuco) participação especial de Leandro Carvalho; “Sonho de Magia” (João Pernambuco) participação especial de Leandro Carvalho, e “Interrogando” (João Pernambuco).

Em 1997, o violonista Leandro Carvalho gravou o CD ‘João Pernambuco: O Poeta do violão’, interpretando músicas de João Pernambuco. O disco foi lançado pela Eldorado.

Em 1999, Leandro Carvalho fez um novo tributo ao grande mestre do violão e compositor brasileiro gravando 20 músicas no CD ‘Descobrindo João Pernambuco’, também lançado pela Eldorado.

Em 2013, Leandro Carvalho realizou um circuito de shows, com repertório de músicas de João Pernambuco, promovido pelo Instituto Itaú Cultural. A turnê começou em São Paulo e passou por diversas cidades de Pernambuco.

Entre tantas homenagens é imprescindível registrar que Baden Powell, Maurício Carrilho e Raphael Rabelho foram alunos de Jaime Florence – o Mestre Meira -, sendo que todos três reproduziram com brilhantismo os conhecimentos transmitidos por Meira e demonstraram o quanto a obra de João Pernambuco está ligada de forma visceral à história do violão no Brasil, pois todos se dedicaram com maestria à difusão das obras de João Pernambuco.

Nos diversos encontros com o lendário e saudoso Mestre Meira, ele me relatou com profundo sentimento os momentos que conviveu com o amigo João, nas rodas musicais, com uma nítida descrição da técnica de interpretação tomada de inconfundível emoção: “Busto erguido, olhar incendiado, como que interrogando as pessoas, dedilhava as cordas e corações. Assim, João interpretava suas músicas fazendo nascer de sua soberba verve criadora o jongo “Interrogando”. Nós tocamos com o maior violonista uruguaio, Augustin Barrios, lá na loja Cavaquinho de Ouro. Nesse dia, João Pernambuco tocou o jongo “Interrogando” e eu fiz o segundo violão que ele havia me ensinado. O jongo “Interrogando” tem o solo a tempo e eu fazia o contratempo. Foi uma maravilha, e isso faz parte da música! Foi tão emocionante, que nesse dia o Barrios compôs na hora o “Choro da saudade”. O Barrios era feio, mas tocava muito bem e de forma bela”, disse Meira.

Refletindo sobre a forma com que João expressava seus sentimentos no momento em que recriava a realidade captada por sua vivência é que entendemos a composição “Sons de Carrilhões”, a música mais gravada ao violão em todo o mundo. Possuidor de imensa genialidade musical ele extraiu os componentes sonoros que ouviu no período da infância, na sua cidade Jatobá, de suas experiências quando trabalhava na oficina de ferreiro fabricando e desempenando eixos de carros de boi. Desta relação íntima com os carrilhões de boi é que João sintetizou sua composição partindo da frase sonora provocada pela fricção do eixo com a madeira, fazendo nascer a obra mais conhecida do violão brasileiro. Todo o seu trabalho, suas composições e interpretações, nos deixa diante da salutar impossibilidade de estabelecermos a clássica divisão entre vida e obra de João Pernambuco. A simbiose é organicamente tão profunda, que quando pensamos, por força do vício formatado, em sua vida, verificamos tratar-se de uma obra, e concluímos que esta é a expressão não só de sua vida, como também do sentimento de sua gente e de tudo o que integra à sua realidade.

Enfim, a obra de João Pernambuco foi marcada por intensas emoções, das mais amargas às mais doces. Suas criações nasceram da humildade de sua vida; sua arte é reflexo verdadeiro de sua existência, por isso a transcendência e interdependência entre vida-obra. Esta essência se revitalizou em (1983), quando por ocasião das homenagens comemorativas ao centenário do nascimento de João Pernambuco, que agora reaviva sua força motriz e constante com esta nova edição da Editora Flor Amorosa.

Mas quais segredos nos reserva aquele homem de ar modesto, dono também e principalmente de um grande coração, não fosse ele poeta, além de ter mantido seu espírito cândido de criança naquele corpanzil atlético de 1,83 centímetros de altura? Em 1982, com o livro sobre João Pernambuco já no prelo da FUNARTE fiz longa viagem à Recife seguindo via Brejo da Madre de Deus, local onde conheci numa feira, Valdivino. Este levou-me, junto com outras pessoas em seu pequeno e velho caminhão, pelas longas veredas do sertão pernambucano rumo ao município de Jatobá, antigo Jatobá do Brejo, ou Feira do Capim, onde João nasceu em 2 de novembro de 1883. Ali fui recebido com uma afetuosa acolhida dos moradores, principalmente por parte de Zé do Charo, do lavrador Zé Tomás, da doceira Cardolina do bar-armazem de Antonio Mariano onde fiquei hospedado e tive a honra de conhecer o violeiro e cantador Mané do Jacu, que com seus 82 anos cuidava diariamente de sua roça e da pastagem de seus bodes. Ao fim do dia, ao voltar da roça, estava sempre pronto para tomar aquela purinha na birosca de Antônio Mariano. Lá as histórias desfiavam longo tempo, sucedidas de canto e de viola. Era quando a birosca enchia de jovens, crianças e idosos prontos para a cantoria. Dia 9 de agosto de 1982 veio a alegria maior quando Mané do Jacu ponteou sua viola e fez soar um canto da terra cujos primeiros versos diziam:

            No sertão há sempre estrada

            Por onde passa tropa e boiada

            Vão a caminho do mar

            Foi-se por este caminho

            Quem construiu o meu ninho

            E do ninho fez meu lar…

E por que tamanha alegria? Tratava-se da música “A Estrada do Sertão” de João Pernambuco, com versos compostos por Wilson W. Rodrigues em 1946, que foi ali cantada em coro por seus conterrâneos com grande emoção.

Sentindo o cheiro da terra onde nascera João, pude então constatar que em cada canto de Jatobá estava expressa a grandeza do sentimento de João Pernambuco, em sua vida e obra. Ali, naquele pequeno vilarejo estava o húmus, o sumo profundo e maior da verve criativa de João. Era como se ele próprio estivesse ali de corpo presente. E haja coração!

Desde pequeno, João sempre gostou de música. Nas feiras onde fazia seus biscates, João, o menino de 12 anos parava para ouvir os cantadores, violeiros e observava tudo com olhos atentos. Mais tarde, trabalhou em fábricas de tecido, fósforo e, por último, como aprendiz de ferreiro, seguindo o exemplo do irmão mais velho, José. João frequentava o pátio do São Pedro, e foi no Mercado que comprou sua primeira viola de terça, com duas cravelhas de madeira quebradas e uma rachadura na parte superior do bojo. Ele próprio fez o conserto na viola que tinha sido do violeiro Cirino da Guajurema, artista que ele tanto admirava e que deu a ele as cordas de presente. João pagou 20 réis pela viola e para completar o pagamento juntou dinheiro obtido nos serviços de carreto durante um mês. No Mercado e nas feiras, João observava bem de perto atentamente e aprendia com seus mestres, os cantadores Ugulino do Teixeira, Romano da Mãe D´água, Inácio da Catingueira, Mané do Riachão e os violeiros Cirino da Guajurema, Manuel da Cabeceira, Bem-te-vi, Mapolão, Serrador, Cego Cinfrônio e Falcão das Queimadas. Diariamente, de volta do trabalho, João passava no Mercado e à noite punha-se a tocar em casa. Falava pouco e todos tinham um profundo carinho por ele, principalmente Cirino da Guajurema, que se admirava com o talento de João, pois aprendia rápido a tocar sua viola. Aos 13 anos João já integrava a roda de violeiros e cantadores, mantendo-se atento aos mínimos movimentos das mãos de seus mestres sem olhar para o braço de sua viola. No Pátio do Mercado São Pedro ele executou a canção dedicando-a aos seus amigos e mestres. Tocaram todos juntos reproduzindo a performance da fauna que inspirou a composição. Neste dia, Cirino da Guajurema presenteou João Pernambuco com uma de suas violas.

Em 1904, após o falecimento de sua mãe, João, aos 21 anos, partiu para o Rio de Janeiro seguindo o exemplo de sua irmã Maria e do irmão José. Foi no Rio de Janeiro que João Teixeira Guimarães, trazendo rica bagagem musical assimilada da genialidade dos artistas do povo, deixa vir à tona o inconfundível João Pernambuco.

Em 1926 fez as primeiras gravações autorais pela Odeon, como os maxixes “Mimoso” e “Lágrimas”, com participação do cavaquinista Nelson Alves (integrante com ele d’Os Oito Batutas) e os choros “Magoado” e “Sons de Carrilhões”.

Patrício Teixeira gravou pela Odeon a toada “Jandaia”, de João Pernambuco.

Em 1929 a cantora Stefana de Macedo gravou as toadas “Vancê”, parceria de João Pernambuco com E. Tourinho, e “Siricóia”, além de “Tiá de Junqueira” e “Biro, Biro, Iaiá”, ambas de João Pernambuco, com ele acompanhando ao violão.

Em 1930 João Pernambuco gravou uma série de cinco discos para a gravadora Columbia interpretando dez composições de sua autoria: os choros “Pó de Mico”, “Magoada”, “Reboliço”, “Recordando” e “Dengoso”; os jongos “Sentindo” e “Interrogando”; as valsas “Sonho de Magia”, “Suspiro Apaixonado”, e o fox-trot “Rosa Carioca”.

Também pela Columbia o cantor e instrumentista Jararaca gravou obras de João Pernambuco, que acompanhou ao violão a toada “Catirina”, as emboladas “Meu Noivado”, “Perigando” e “ABC” com versos de domínio público. No mesmo ano a cantora Stefana Macedo voltou a gravar obras de João Pernambuco com parceria de E. Tourinho, as toadas “Maneca das Geraes”, o côco “Sodade Cabocla” e o baião “Estrela Dalva”, mais uma vez com João Pernambuco ao violão.

Em seguida, o cantor Paraguassu gravou a toada “Amô de Caboclo”, parceria de João Pernambuco com Januário de Oliveira; as toadas “A inveja matou Caim” e “Corrupião da Lagoa”, parceria de João Pernambuco com Junquilho Lourival.

Em maio de 2016 foi realizada a primeira edição do Festival de Choro João Pernambuco no histórico Pátio de São Pedro, em Recife, exatamente no local onde João Pernambuco aprendera a dar os primeiros acordes ao violão. A segunda edição do festival aconteceu no mesmo local, nos dias 30/ 11 e 1/ 12 de 2017. No ano de 2018, o Festival foi realizado dias 1 e 2 de dezembro na Torre Malakoff, em Recife.

Em 27 de julho de 2018 nos chegou a notícia, através da seção de Cultura do jornal O Globo, da gravação de uma música inédita de João Pernambuco, com título desconhecido, que seria uma parceria de Pernambuco com Alfredo Medeiros. Neste artigo o jornalista Evandro Éboli esclarece: “Este choro inédito foi apresentado num encontro musical em Ipanema, no dia 5 de novembro de 1958, na residência da pianista Neusa França, que faleceu em 2017, deixando registros sonoros em fitas-rolo. A música registra a contemporaneidade do choro, tendo as nítidas digitais de João Pernambuco. Na gravação, antes de interpretar a música, Medeiros anuncia: – Vou tocar um choro meu e de João Pernambuco -, mas não menciona o nome da obra.

Assim, é que, agora passados 36 anos do lançamento do livro João Pernambuco: arte de um povo pela FUNARTE, a Editora Flor Amorosa realiza a reedição desta obra com todos os méritos que João Pernambuco merece, e a cultura brasileira agradece, pois ele é de suma importância para a historiografia da arte do povo brasileiro. Assim, esta brilhante iniciativa contribui para revitalizar e atualizar a vida-obra do magistral João Pernambuco, que está visceralmente incorporada em substância e forma de expressar o sentimento fecundo e maior do Violão Brasileiro.

* Um dos autores do livro João Pernambuco: arte de um povo, em pré-venda neste momento (reedição) pela Editora Flor Amorosa.

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